A marcha das vadias de Fortaleza o desafio da mulher Aborto Livre Reflexão política no Brasil
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O que é a Mais-Valia e como ela é apropriada no sistema capitalista






O sistema capitalista, fundamentado na produção, também transforma a força de trabalho em mercadoria.O indivíduo, sem ser o possuidor dos meios de produção, e só tendo a força de trabalho para garantir a sobrevivência, vende-a em um mercado, passando a depender do que oferecem pelo seu trabalho.


Por conseguinte, cria-se uma segregação social, onde duas vertentes se apresentam: o proletário x o detentor dos meios de produção(capitalista).E isso é figurado na idéia de oposição de classes proposta por Marx.


E uma das formas de exploração capitalista está presente na mais-valia.O homem, ao vender sua força de trabalho, recebe, em troca, um salário, que é o preço definido como o de qualquer mercadoria.Essa força de trabalho é adquirida junto com a matéria-prima e os equipamentos necessários para garantir a produção.Sendo que a matéria-prima e o maquinário preciso constituem o capital constante, pois fundamentam o chamado trabalho morto, já que não geram valor.E isso é contrário ao capital variável, constituído pelo trabalho vivo, que é o indicativo geral dos salários pagos aos trabalhadores.Nesse contexto, infere-se que, na fabricação, o produto final é uma nova mercadoria, pois, acima de tudo, é dotada de um valor criado pela força de trabalho.


O novo valor é conseqüência da disparidade entre o salário pago e o valor do trabalho produzido, ou seja, é derivado da mais-valia.O ordenado pago ao trabalhador não representa o percentual do que ele produziu.A mais-valia é o trabalho vivo não-pago.



Por exemplo:



1)Supondo que, em uma fábrica de bolsas, trabalhem 100 funcionários.


2)Imagine que cada funcionário produz, por mês, 100 bolsas.


Portanto, o total, no mês, é de 10.000 bolsas:


100 (número de funcionários) x 100 ( bolsas produzidas por cada um) = 10.000.


3)Suponha que o dono da fábrica venda cada bolsa por 50 reais.Conclui-se, portanto, que o total arrecadado é de 500.000 reais:


10.000 (total de bolsas produzidas) x 50 (preço de cada bolsa) = 500.000 (total arrecadado).


4)Suponha, também, que o salário de cada funcionário é de 300 reais por mês.Logo, infere-se que o capital variável gasto com o pagamento dos funcionários é de 30.000 reais por mês:


300 ( preço do salário) x 100 (número de funcionários) = 30.000.



5)Considere que o dono da fábrica tenha gasto com matéria-prima, locação, maquinário, cerca de 90.000, o que configura o capital constante, já que não cria valor.


6)Infere-se que a mais-valia seja igual a 380.000 reais:


30.000( capital variável)+ 90.000(capital constante) = 120.000 reais.


500.000( arrecadação total) - 120.000 (Capital constante e

variável) = 380.000 (Mais-Valia).



Ou seja:


Um funcionário produz 100 bolsas, mas só fica com o dinheiro equivalente a 6 bolsas.

Enquanto que o capitalista, sem participar da produção, sem trabalhar, fica com o equivalente a 7.600 bolsas.


Logo, o que se nota é a presença de um trabalho não pago.Ocorre, por parte do capitalista, a compra do volume de mercadoria.


O capitalista apropria-se do que o trabalhador produziu durante um determinado período de tempo, havendo uma clara dissonância no que se refere ao que é pago e ao que se foi produzido pelo trabalhador.Isso se configura como a mais-valia absoluta.Entretanto, há, também, a mais-valia relativa, que é o emprego de novas tecnologias para aumentar a produção, aumentando também o tempo de trabalho, mas sem que os salários aumentem.Portanto, o dinheiro recebido pelo capitalista, após a venda do produto, é sempre marcado pelo adicional de dinheiro proveniente da mais-valia, que configura um lucro em altíssima proporção.


A questão é que, invariavelmente, o proprietário dos meios de produção fica com a maior parcela sobre os produtos vendidos.E o trabalhador, que esteve diretamente relacionado com a produção, é explorado em um sistema que visa apenas a arrecadação, o lucro, e não se importa em “objetificar” almas.






(Mari N.)
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O processo de acumulação de capital e a expansão do sistema de acordo com a análise de Marx sobre o Capitalismo




A crítica ao capitalismo proposto por Karl Marx teve uma abrangência dinâmica ao averiguar a realidade sócio-econômica, de forma a analisá-la de acordo com suas transformações, gerando o dinamismo das proposições e conceitos teóricos da economia cuja finalidade se observa na tentativa de elaboração de uma base política que reflita a vida ideal e que dilua as apreensões do homem.



Esta abordagem dinâmica da concepção marxista teve, como precedentes, os mercantilistas, embora estes não tendo formulado trabalhos que reconhecessem problemas básicos para a formação de uma escola econômica, formaram um grupo que, vinculados aos primeiros reis da época moderna, manifestaram uma nova forma de organização administrativa dos Estados recém-formados, visando atender às transformações (dinamismo) do sistema sócio-político-econômico vigente no período que compreende a transição da Europa feudal para a capitalista.

Sob esta nova metodologia de abordagem da realidade, alguns pontos mercantilistas em especial devem ser discutidos e parametrizados com os métodos classicistas de análise econômica. A princípio, a visão dinâmica alterou a noção clássica de que a economia deve se restringir os princípios equilibristas naturais das coisas, inclusive na relação entre as forças de mercado (oferta e procura) cuja função do Estado era bastante reduzida. Em contraposição de tal modelo teórico da antiga escola econômica, o conceito mercantilista da época se abrangeu e defendeu que o sucesso na expansão econômica dos Estados modernos estava atrelado à contínua acumulação de metais preciosos, portanto, devendo-se inclinar toda uma campanha estatal a esta ação econômica, a fim de facilitar a fabricação de equipamentos tanto militares quanto civis, estes principalmente no tocante à expansão comercial.

Este novo conceito, como conseqüência, desencadeará novos procedimentos, aconselhados aos novos reis a seguir. Impôs, assim, na tentativa de evitar a desvalorização de produtos por outros produtos (especificamente dos mais arcaicos pelos mais modernos), a necessidade de armazenar a riqueza da nação sob a forma de dinheiro, evitando que o estoque dos produtos os desvalorizasse. Seguindo ainda os mesmos objetivos acumulativos, o Estado deve se portar como protecionista, cuja finalidade se concretiza na elaboração de uma balança comercial positiva, buscando a retenção de um maior volume de dinheiro, desta vez, externo.

A teoria da necessidade de acumulação citada servirá de grande valor na construção da Escola Marxista de análise econômica, no decorrer do processo de concretização do modo de produção capitalista, fundamentada na crítica ao novo sistema e na elaboração teórica do chamado comunismo marxista, caracterizado por uma formação social condizente com o elevado grau de evolução humana, partindo do princípio do homem como sujeito de sua própria história, dando contorno ao projeto que este tinha em mente. Entretanto, não tomará tal procedimento teórico mercantilista de forma acabada.

Num primeiro momento, inclinará seus estudos à crítica ao socialismo utópico, objetivando a desconstrução idealista daquilo que os utópicos chamaram de socialismo, baseado na ausência de uma base teórica construída sobre os pilares do que Marx nomeia de materialismo histórico. Dessa forma, os utópicos deturpavam e anulavam a característica sociável do homem, enquanto ser naturalmente político, de forma a despertar outro tipo de homem distinguido por suas tendências positivistas.

Noutro momento, passado toda a discussão que permeia vários aspectos dos estudos de Marx; como o aprofundamento do materialismo histórico, a idéia de estrutura e superestrutura, o desenvolvimento dos modos de produção, entre outros; diferenciar-se-á da noção mercantilista de acumulação ao tomar como objeto de estudo não mais a acumulação de dinheiro, mas sim, a acumulação de capital. Portanto, inicialmente confrontará as diferenças entre dinheiro e capital. Assim, conceituará o capital como sendo o dinheiro que se transformou em produto final após este ter passado por todo um processo de modificação que resultou no acréscimo em cima do seu valor primitivo. Tal processo de transformação, que se concretiza na produção de capital, terá como formas mais viáveis de sobrevir a circulação indireta de mercadoria e a exploração do valor trabalho. Nesta relação, observa-se que o dinheiro é transformado em mercadoria, através do vendedor que recebe tal dinheiro de um comprador o qual se apodera de uma única intenção: de receber o retorno do dinheiro que lançou em circulação já adulterado pela diferença quantitativa sobre o valor inicialmente imposto pelo tal comprador. Isto se solidifica somente quando o dinheiro primitivo, transformado em mercadoria, é retransformado em dinheiro novamente (incluindo o acréscimo), surgindo, assim, a mais-valia, berço de uma das principais críticas marxistas.

A exemplo ilustrativo de tal processo pode-se verificar quando alguém, designando investir na venda de determinado produto, assenta uma certa quantia em dinheiro para que o receptor, ou vendedor, receba aquele dinheiro e assuma a responsabilidade de, agora, vender para outro comprador tal produto cujo preço será maior que a quantia de dinheiro investida pelo comprador inicial.

A exploração do valor trabalho se dá através da obtenção da mais-valia sobre o próprio trabalho vivo (transformado também em mercadoria no sistema capitalista) não-pago do trabalhador. O trabalhador, condicionado a vender a sua força de trabalho, e também alicerçado pela alienação imposta sobre tal força de trabalho, para garantir sua sobrevivência e reprodução, somente recebe uma parcela das horas de trabalho realizadas no processo produtivo de, por exemplo, uma determinada empresa para a qual ele trabalha.

Sob este raciocínio, Marx explica o processo de expansão do sistema. O capitalista deverá investir dinheiro para comprar tanto os meio de produção quanto a força de trabalho, pretendendo ganhar um retorno em capital, portanto maior que a quantia investida no momento inicial. Ele necessita se apoderar deste tipo de investimento para continuar seu processo produtivo, garantindo mais lucro, como num ciclo. Para tanto, também necessitará do acúmulo de capital, ou seja, da mais-valia.


(Bia G.)

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Você sabe com quem está falando?



Está na hora de refletir sobre os nossos papéis como atores sociais, ou como enxergamos esses papéis.Não somos melhores em nenhuma instância, porque o sentido de melhor já carrega a idéia da estratificação. E nossos conceitos não são superiores, porque a cultura não é estamental quando há um vínculo direto com a ética. Não há sociedade justa, igualitária, verdadeiramente isonômica, sem haver, antes de tudo, o conhecimento prévio sobre o respeito às diferenças.


E, ao ver o Mário Sérgio Cortella, filósofo e educador, palestrando sobre esse tema, você percebe como é importante o pensamento crítico para desmistificar a idéia de superioridade social.Esse vídeo é bastante esclarecedor.

Sabe Com Quem Está Falando? from Santos Idag on Vimeo.



É hora de repensar, não?



(Mari N. e Bia G.)
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O Estado do Bem-Estar Social e a construção de um novo Capitalismo






A trajetória histórica do desenvolvimento do Capitalismo mostra um alicerce ideológico centralizado no mercado, na produção, e estimulado pelo processo de competitividade.Preconiza princípios básicos que determinam sua existência, como a propriedade privada dos meios de produção; acumulação de lucros; livre concorrência( participação mínima do Estado); trabalho assalariado(advindo da venda da força de trabalho, que também se torna mercadoria dentro da lógica do sistema).Gradualmente, cria-se um claro antagonismo entre os proprietários dos meios de produção e os que não são donos dos meios de produção e que, portanto, ficam sujeitos a expropriação da força de trabalho.Por conseguinte, nessa sistemática capitalista, a cisão social e econômica subjuga o grupo dotado apenas da força de trabalho.Esse grupamento, para garantir a supressão das necessidades básicas( garantia da sobrevivência), vende a força de trabalho por uma quantia de dinheiro(salário) para um proprietário de empresa, que compra, na verdade, a força de trabalho por um período de tempo.Então, é necessário fazer esse levante para traçar um paralelo em relação à questão da estratificação social(oposição de classes) como produto do sistema capitalista, que parte na contramão de um processo de igualação política, econômica e social, pois visa atender às necessidades privadas em detrimento das necessidades coletivas, como é um exemplo materializado na acumulação de lucros, onde este é reproduzido, em grau máximo, na Mais-Valia( o ordenado pago ao trabalhador não representa o percentual do que ele produziu), o que demonstra a constante expansão do sistema.Isso é importante para mostrar em que implica a dinamização do sistema, e altercar em relação à desigualdade que se contrapõe ao desenvolvimento técnico-científico conquistado ao longo da implantação do Capitalismo.E, posteriormente, essa dualidade vai ser essencial na explicação quanto à dualidade de blocos completamente antagônicos no que tange os princípios de ordenação própria, e que vão tomar forma, sobretudo, no período da Guerra Fria.



Em 1917, a Rússia, com a Revolução Vermelha, dos Bolcheviques, trouxe à tona um novo sistema, com princípios políticos, econômicos e sociais contrários aos instituídos pelo Capitalismo.O novo sistema tinha como intenção superar o Capitalismo e criar uma nova disposição social e econômica, valendo-se das idéias de Marx e Engels, onde tinha como objetivo a erradicação da propriedade privada; a implantação de uma economia planificada; e extinção da sociedade de classes, exatamente a que era produto da expansão do sistema vigente mundial.Houve, posteriormente, um processo de ampliação das idéias socialistas.E, com o fim da II Guerra Mundial, grande parte do Leste Europeu passou a fazer parte do bloco socialista.Esse processo de fortificação, de inseminação de idéias socialistas na Europa, que fomentavam novos alicerces ideológicos, apresentou-se como uma ameaça ao sistema capitalista.Consequentemente, vingou uma polarização mundial (socialismo x capitalismo), e a corrida espacial e armamentista que tão bem caracterizou a Guerra Fria, definida como um período de paz armada, de tensão global.É importante mostrar que essa insurgência socialista somada às consequências da Crise de 1929 trouxe novas formulações que visavam garantir um ordenamento social, econômico e político do sistema capitalista.




A Crise de 1929 foi um fator determinante na constituição desses ordenamentos reformistas, pois foi devido as suas consequências que se despontou uma série de questionamentos.Um deles foi referente à aparente fragilidade do Liberalismo ante o efeito das crises periódicas.Logo, as principais potências econômicas romperam com as fundamentações do Liberalismo convencional.Nesse contexto, surgiram as postulações acerca da instabilidade, fraqueza, demonstrada pelo Liberalismo, onde se destacou Keynes ao apresentar a oposição dual entre a teoria clássica e sustentação prática na economia.Esse foi o ponto de partida que levantou duas problemáticas fundamentais:


1)O papel do Estado nos momentos de crise:


Intervenção estatal para redinamizar o sistema e garantir a harmonia do mercado.E isso mostrava a relação paradoxal entre os princípios da economia de mercado e o direito à dignidade humana.A expansão do sistema, com máxima acumulação de lucros, ia de encontro ao processo de conjuntura dos direitos inalienáveis ao ser humano, como o de assistência e garantia de renda.



2)Redefinição do papel do Estado no sistema capitalista:


Essa redefinição tinha como objetivo primário a resolução quanto às consequências da crise.E, posteriormente, em um segundo momento, voltou-se para a ação intervencionista do Estado que foi materializado na formulação do Bem-Estar Social(Welfare-State), um estabilizador político e econômico.O Estado apresentava-se, agora, como uma espécie de protetor da sociedade, articulando-se com a iniciativa privada e outras organizações sociais para promover ações que proporcionavam melhores condições de vida à população.Focou-se, portanto, nos serviços básicos da sociedade, como educação, saúde, habilitação, renda, previdência social.Por conseguinte, tomou um novo papel, em que ocupava uma posição mais decisiva, intervencionista e regulamentadora.Pode-se citar quatro linhas de ação do Estado como exemplos:


-A Economia passou a sofrer interferência direta do Estado, pois Este passou a regular o mercado.

-Atenuar as desigualdades sociais.

-Estimular o crescimento econômico.

-Direcionar o processo de crescimento econômico.




Logo, isso contraria a lógica básica do sistema, que é construída em cima dos princípios do Liberalismo.E, com a implantação do Bem-Estar Social, tinha-se o contrário da lógica básica, uma nova faceta do Capitalismo, pois essa fase diferenciada era marcada pelo poder estatal, além das profundas mudanças na organização política, social e econômica.

Esse quadro do Bem-Estar Social desenvolveu-se até o início dos anos 70.Então, veio um processo de crise, pois o “Welfare-State” passou a ser objeto de críticas e conflitos.A camada mais conservadora apontou alguns problemas vitais que se desdobravam dentro do Estado de Bem-Estar Social, e que feriam a lógica do sistema, como, por exemplo: a drenagem dos investimentos; a acomodação dos trabalhadores e diminuição da produtividade; além da presença de uma legislação pesada, que afugentava grandes empresas, e que, consequentemente, deixavam de investir exatamente por conta dessa legislação.


Vale salientar não só os problemas apontados, mas também o contexto em que essa crise do Bem-Estar Social estava inserida.Ela coexistia no contexto da crise do Socialismo; crise do petróleo; e crises de algumas economias latino-americanas.

No Brasil, por exemplo, onde o excedente é incorporado à produção, nunca entrou nesse estágio, logo o Estado de Bem-Estar Social nunca se materializou aqui.



Então, fica claro que, a partir da década de 70, esse antagonismo quanto à base lógica do Mercado e a do Estado provocou uma reação neoliberal, e os princípios do Liberalismo passaram a ser retomados.


(Mari N.)

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A reflexão política no Brasil





A Reflexão da política no Brasil: do pensamento político tradicional ao sistematizado, após o estabelecimento das universidades.



Bolivar Lamounier projetou, através de sua obra intitulada “A Ciência Poltica nos anos 80”, as conclusões de seus estudos sobre o avanço do raciocínio político brasileiro; desde o império, no século XIX, até a década de oitenta, aludindo a alguns problemas vigentes de caráter político daquela época.

Com isto, objetivou relacionar as características do pensamento político de duas fases: uma que antecede a instalação das universidades, que se refere à importância nas tradições de pensamento político mesmo antes do crescimento econômico e urbano; e outra pós-institucionalização, formando uma política devidamente imersa na metodologia científica de abordagem. Esta última referindo-se, portanto, à:


“Expansão quantitativa da pós-graduação e a concomitante diversificação de formas institucionais que se operam a partir de meados dos anos sessenta”. (p. 407)


Lamounier conceituou a idéia de “relativo avanço” da Ciência Política no Brasil, o qual o próprio autor convencionara descrever o quadro de pensamentos políticos brasileiros. Tal relativo avanço está embutido na percepção determinante na abordagem da realidade imediata da política, metodologia incorporada pelos pensadores políticos brasileiros que se distinguia da realizada na Europa. Esta pré-ciência política se refugiava em outros domínios analíticos, como a economia, o historicismo e a herança cultural brasileiros, tomando um caráter interdisciplinar da ciência política com as outras ciências sociais.

Outro levante colocado pelo autor para explicar este relativo avanço encontra-se numa certa continuidade das atividades de pesquisas no período pós-institucionalização da política como ciência. Esta continuidade foi desencadeada pela expansão quantitativa, especialmente nos programas de pós-graduação, e a pluralização observada nas formas organizacionais, como os departamentos institucionalizados, centros de pesquisa etc. A partir disto, o autor realizou uma análise comparativa da situação brasileira com o restante da América Latina, mencionando o privilégio do Brasil na vertiginosa expansão quantitativa e qualitativa na multiplicação entre os centros institucionalizados, mesmo sob o fato do tardio desenvolvimento universitário no País.

Um terceiro parâmetro aludido por Lamounier na classificação única do desenvolvimento político brasileiro se refere à pouca preocupação concedida à diferenciação entre as disciplinas sociais, como a Sociologia e Direito. Entretanto, esta característica que diferenciava a abordagem brasileira de outros países, como a França e a Itália, não necessariamente a tornava inferior.


Lamounier prossegue sua discussão do desenvolvimento político brasileiro dilatando a idéia já concebida sobre a continuidade das pesquisas já realizadas muito antes do estabelecimento das universidades. A reflexão política, anterior à sua institucionalização, dotada de prestígios tradicionais foi decisivo para a compreensão de características enraizadas na Ciência Política, de certa forma também a legitimando. A análise destas tradições também permite explicar o motivo de as Ciências Sociais, de um modo geral, persistir a sua expansão mesmo condicionadas ao autoritarismo político acentuado após o golpe de 1964.

Segundo o autor; que realizará uma crítica sobre a aplicação reducionista de meros “tratados de administração” ou “conservadorismo burocrático”, de Mannheim, nos produtos da política; existe um aspecto singular no papel da Ciência Política brasileira que vai de encontro com estes preceitos funcionário típico-ideal de Mannheim. Explica isto ao relativizar os tipos de burocracia existentes na Alemanha e no Brasil. A burocracia brasileira ainda era precariamente institucionalizada durante o Império e a República Velha, portanto tomava um papel de baixa influência. Em contrapartida, a burocracia alemã, já bem instalada, era prestigiada pelos próprios membros executivos da máquina burocrata, também autores dos “tratados de administração”.

Para uma melhor ilustração de sua análise, Bolivar Lamounier irá impor um paralelo entre os desenvolvimentos da ciência social na Alemanha e Estados Unidos, observando a fragilidade do Estado nacional alemão, recém-formado, como estopim fundamental para a exigência de um núcleo bem estruturado de cientistas sociais, na tentativa de viabilizar resoluções para os problemas do estado e de construir um tecido social perdurável, naquele momento histórico de mudanças. No caso brasileiro, naqueles tempos de recém-instalação da república, quando o escravismo ainda acabara de ser abolida e a atividade econômica baseava-se na exportação de produtos agrícolas e matérias-primas, os intentos eram bastante voltados na consolidação dos interesses da camada social comandante. As massas eram vistas como um agregado amorfo, invertebrado e sem contornos definidos, assim também eram enxergados os intelectuais.

Portanto, há de se imaginar que a formação da Ciência Política nacional partiu de problemáticas na qual a formação e consolidação do Estado era parte essencial. Tal noção de necessidade vigente formou uma das etapas do agendamento de debates públicos da Ciência Política proposta pro Fábio Wanderley Reis. De fato, a formação estatal brasileira ganhou solidificação pós-1930 com a efetivação do controle do território nacional e a garantia de segurança mínima da população.
Além desta meta, Reis afirmou a emergência da implantação e ampliação da igualdade, definindo as “áreas de igualdade” e suas medidas. A política de massas surgida após a Segunda Grande Guerra se chocava com a preocupação mais primordial do fortalecimento do poder central, em razão da expansão do próprio intervencionismo estatal na aplicação de mecanismos variados que objetivam a ampliação das áreas de igualdade. A estratégia político-econômica de substituição de importações, a fim de reduzir a dependência externa, também corroborara para a impotência na consolidação da igualdade. A próxima medida proposta por Reis tem um caráter não-imediatista, por representar um alcance pós-ideológico, quando houver uma igualdade e elevação dos padrões de vida concretizadas no Estado. Fica notório afirmar que esta etapa não forma algo construído no Brasil, especialmente durante o período de divisões ideológicas evidenciadas no regime militar (1964 – 1985).

A periodização elaborada, desta vez, por Lamounier contará com seus estudos sobre a situação político-econômica pós-1964, a partir dos constantes questionamentos a respeito da suspeita concentração do poder se contrapondo com o explosivo desenvolvimento econômico.

O cenário político, portanto, se distinguia pela ampliação e constância das reivindicações de igualdade com a participação de várias categorias sociais. Com isso, chama a atenção das problemáticas mais concretas desse período para formar suas etapas de agendamento de debates públicos. A primeira diz respeito à importância do entendimento da consolidação do Estado nacional através de trabalhos isolados de pensadores autoritários do início do século passado. Entretanto, estes trabalhos, para a época, não tinham a metodologia acadêmico-científica. Baseava-se mais em um jogo de luta ideológica.

Os autores mais conceituados citados por Lamounier são Alberto Torres, Oliveira Vianna, Azevedo Amaral, Francisco Campos e Nestor Duarte. Apesar das divergências destes, todos convergiam seus raciocínios sobre dois pontos pertinentes na análise do contexto sócio-políticos:
“(a) ao nível das elites dominantes, a coesão dos grupos familiares, baseada na propriedade da terra, impedia a diferenciação da esfera ‘pública’, tornando inviável a consolidação do Estado; (b) ao nível das massas, a pobreza generalizada e a dispersão espacial fomentavam uma espécie de massificação pré-capitalista...” (p. 413)

A intervenção estatal premeditada foi possibilitada, segundo o pensamento autoritário, pela identificação dos agentes capazes de provocar as mudanças e a escolha dos meios tencionados sob as luzes desta preocupação. Estes meios, por sua vez, provocaram a rigidez do sistema, seja pela força ou pela subestimação das fissuras internas da oligarquia e dos focos de contestação da vida urbana e pela industrialização recente.

Em contrapartida, ocorre a superestimação dos agentes estatais, do poder e da coesão. A ameaça da coesão territorial e a promessa de um progresso sob uma elite intelectualizada formaram a situação-conjunto que desencadeou o golpe de 1930. O resultante disto é identificado no surgimento de um sistema político misto e possuído de uma complexidade bem maior que aquilo que existia até então. Segundo Victor Nunes Leal, houve um contínuo desequilíbrio entre o sistema oligárquico já enfraquecido e um poder do Estado em ascensão. Apesar do sistema autoritário, o que havia sido instalado era um sistema representativo que culminava seu ápice na representação eleitoral (que vingava, por um lado, as fraudes do clientelismo e, por outro, a eficácia do poder publico), conseqüentemente, na continuidade do arcabouço pelo qual o sistema se alimentava.

Assim como Victor Nunes Leal, Orlando de Carvalho, Guerreiro Ramos, Hélio Jaguaribe e Afonso Arinos de Melo Franco, entre outros, ancoravam o pensamento político clássico dos anos vinte e trinta, para a construção de alternativas práticas paras as problemáticas da Constituição de 1946. O processo eleitoral era um reflexo do artificialismo partidário vigente, por proporcionar uma pobre participação popular, especialmente ao observar o fato dos direitos eleitorais não serem uniformes em espaços urbanos e rurais, concentrada mais firmemente apenas nos espaços urbano-industriais. O intervencionismo estatal deixava reduzidas lacunas para discussão sobre as instituições e práticas democrático-representativas. Sob esta temática, a devida importância aos trabalhos de Orlando de Carvalho, utilizando-se do empirismo para descrever as realidades de diferentes regiões.

“Nesta mesma linha de raciocínio, cumpre destacar os trabalhos de Gláucio Ary Dillon Soares, cuja contribuição, publicada em livro com grande atraso, em 1973, foi desde o início no sentido de mostrar que os partidos, e até mesmo as chamadas lideranças “populistas”, tinham bases sociais e ideológicas diferenciadas.” (p. 416)

“Há, pois, nos trabalhos de Orlando de Carvalho e de Gláucio Soares algo de continuidade e algo de ruptura em relação ao que se fazia antes de 1945” (p. 416)

“Voltando nossa atenção para outras áreas de pesquisa e, especialmente, para as duas instituições de maior prestígio na época, o ISEB e a USP, torna-se perceptível uma continuidade mais profunda com a antiga tradição de pensamento brasileiro” (p. 416)

“A ‘autonomia’ e a ‘modernidade’ da USP traduziam-se, nesse contexto, num estilo de análise sociológica que se voltava, de um lado, para trabalhos de campo e para estudos monográficos e, de outro, para extensas investigações sobre os traços distintivos da formação histórica paulista: a economia cafeeira, a imigração, a industrialização e seus efeitos na estrutura social”. (p. 417)

“No caso do ISEB [...] procurou retratar a estrutura econômica e política de maneira abrangente, como o objetivo explicito de fornecer diretrizes para o desenvolvimento nacional [...] as teses básicas do ISEB mantiveram uma grande continuidade com as dos anos vinte e trinta, destacando a insuficiente autonomia do Estado para promover o planejamento da economia e a industrialização, em virtude dos vínculos que o prendiam a interesses clientelistas e a grupos sociais parasitários." (p. 418)

“Parece lícito afirmar, na linha das hipóteses desenvolvidas até aqui, que o pensamento isebiano não chegou a focalizar em termos distintos daqueles que prevaleceram na literatura dos anos vinte e trinta o tema representado, tratado quase sempre de maneira difusa e com categorias de sabor populista-plebiscitário.” (p. 418)

“Transformação do marco institucional, de um modelo burocrático-mandarinístico para um pluralista e flexível. A fase de transição aqui considerada pode ser compreendida de maneira mais nítida atentando-se para a história dos programas de pós-graduação em Ciência Política. Os principais fatos são bem conhecidos: a. Com o apoio financeiro da Fundação Ford, principalmente, foram iniciados programas de pós-graduação em Ciência Política, compreendendo cursos em nível de mestrado e estudos com vistas ao doutoramento, entres últimos no exterior e destinados, fundamentalmente, ao próprio corpo docente dos referidos programas. b. Esses novos programas começaram ligados à principais universidade – o primeiro deles foi o instituído pelo Departamento de Ciência Política da UFMG, em 1965, em 1965. Mais tarde foram criadas ‘áreas’ de Ciência Política dentro de departamentos tradicionais de ciências sociais, modelo adotado no Rio Grande do Sul, na Universidade de São Paulo, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, e na Universidade de Campinas. Com a criação do programa de mestrado em Ciência Política no IUPERJ, em 1969, iniciava-se, porém, uma inovação: o estabelecimento de um programa pós-graduado de ensino e pesquisa a cargo de um instituto autônomo, de caráter privado. c. Após uma fase inicial, fortemente dependente de grants institucionais da Fundação Ford, inicia-se um período em que os programas de pós-graduação em Ciência Política se vêem forçados a diversificar seus pedidos de financiamento, recorrendo a órgãos governamentais e a outras entidades estrangeiras, desenvolvendo-se esse esforço, de maneira crescente, em termos de projetos específicos de pesquisa. Pode-se talvez dizer que a presença da FINEP, na segunda metade dos anos setenta, vai na direção contrária a essa tendência, dada a envergadura e/ou o caráter de apoio institucional de suas doações. Permanece, porém, como um dado essencial, o crescente envolvimento dos referidos programas no mercado de projetos específicos, daí advindo, provavelmente, uma menor concentração de esforços no ensino como tal, especialmente no que se refere a cursos gerais de teoria e metodologia, e o gradativo retorno a um perfil pluridisciplinar.(p. 422-423)

A partir destas constatações, o autor condiciona o adensamento do leque temático da Ciência Política, de forma envolver todo o trabalho de pesquisa já existente e preenchendo as falhas gritantes teoricamente legitimadas.

Para um estudo sistemático, foi sensato organizar uma classificação digna de suas áreas temáticas. Lamounier se reterá, entretanto, nos discussões sobre Estado e Democracia. A literatura brasileira se divide em três grandes conjuntos:

“1) a formação do Estado brasileiro e a expansão do setor público a partir de 1930; 2) instituições militares e comportamento político das Forças Armadas; 3) condiz com os processos eleitorais e sua significação na conjuntura de ‘redemocratização’ iniciada na primeira metade dos anos setenta.” (p. 424)


O tema responsável pela formação do Estado brasileiro foi bastante debatido nos estudos de Raymundo Faoro, em “Os Donos do Poder”, e Maria Isaura Pereira de Queiroz, em “O Mandonismo Local na Vida Política Brasileira”. Estes trabalhos foram enriquecidos com novas abordagens histórico-empíricas com José Murilo de Carvalho, Simon Schwartzman e Fernando Uricoechea. Os trabalhos em torno da temática da Expansão do Setor Público após 1930 saíram de uma mera área especulativa para serem enriquecidos com pesquisas minuciosas, as etapas e os mecanismos através dos quais se expandiu a máquina burocrática brasileira. Entre os autores mais destacados além de José Murilo de Carvalho, cita-se Mário Wagner Vieira da Cunha, Maria do Carmo C. de Souza, John Wirth, Edmundo Campos Coelho e Alexandre Barros.


A conceituação de Estado realizada por Simon Schwartzman tem duas conseqüências fundamentais: de um lado, a necessidade da perspectiva histórica para se compreender a formação, o tipo e o grau desse “setor” que é o Estado; de outro, que esse setor, cujo aspecto mais evidente é a organização burocrática. Neste ponto de vista, foi importante mostrar as limitações dos conceitos econômicos para compreender o papel do Estado, o que levou a nossa Ciência Política a interessar-se sistematicamente pelo estudo dos custos de remoção materializados na formação burocrático-patrimonial brasileira. Luis Werneck destaca-se como autor de teses sobre a temática, além de Maria Hermínia Tavares de Almeida e Leôncio Martins Rodrigues, trabalhando a questão do “novo sindicalismo” a partir do ABC paulista; e Amaury de Souza que procura captar a singular complexidade das relações entre governo e sindicatos. O conceito de ‘identidade organizacional’ é utilizado por Edmundo Campos Coelho a fim de recaptular o processo pelo qual as Forças Armadas construíram para si um poderoso espaço político e burocrático no seio da sociedade brasileira.

Maria do Carmo Campello de Souza entra com importantes pesquisas sobre os mecanismos de implantação do Estado burocrático a partir dos anos trinta. O adensamento temático também é visto no papel político organizados pelos militares, pesquisado por Alfred Stepan e, posteriormente, por autores brasileiros.


O processo de “abertura política”, além da necessidade de compreensão dos acontecimentos dos anos 60 e 70, deram um grande impulso nas pesquisas sobre os processos eleitorais. Estudos sobre a democracia populista são evidenciados das teses de Wanderley Guilherme dos Santos e de René A. Dreyfuss. Bolívar Lamounier e Fábio Wanderley Reis tentaram ligar estes processos eleitorais à conjuntura e à problemática político-institucional mais ampla. Wanderley Guilherme dos Santos projetou seus estudos sob o âmbito do colapso de 1964, levando às ultimas conseqüências a especificidade da esfera político-institucional, ou, à autonomia relativa dos processos instaurados pela vigência de um sistema de representação.

“... o colapso de 1964 precisa ser compreendido, inicialmente, como um colapso do mecanismo político-partidário e parlamentar.” (p. 428)

“A conexão postulada é, pois, que a paralisia decisória conduz diretamente à crise, ou mais exatamente, à violência política, definida como mudança, pela força, das regras do jogo político-representativo vigentes.” (p. 428)

“Nesta linha de raciocínio, a manutenção do calendário eleitoral com um mínimo de seriedade é parte essencial do projeto de abertura; ou, se se prefere, é algo que singulariza o regime autoritário brasileiro em relação a outros mais radicais.” (p. 429)



(Bia G.)
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As incoerências de um anti-aborto - George Carlin



Vi, hoje à noite, o vídeo do George Carlin, um dos maiores comediantes que o mundo já conheceu, e incomparável no gênero de humor stand up.Fiquei impressionada com o teor crítico e a forma de expressão do Carlin.Leva você a pensar.E esse é o humor que verdadeiramente vale a pena: o humor transgressor, que rompe com as velhas amarras reacionárias.Os "humoristas" brasileiros deviam aprender com ele.





(Mari N. e Bia G.)
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Tirinha anti-machismo: a negação


"A lógica interna da dominação só funciona porque os dominantes utilizam categorias do ponto de vista dos dominados, o que faz com que o dominado não perceba que aquela é uma relação de forças.Na realidade "os sistemas simbólicos devem sua força ao fato de as relações de força que neles se exprimem só se manifestam neles em forma irreconhecível de relações de sentido..." -BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina.Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.


(Mari N. e Bia G.)
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O desafio da livre determinação feminina sobre o próprio corpo



- 1 milhão de abortos são realizados, anualmente, no Brasil. (ONG Católicas pelo Direito de Decidir)
-1 em cada 7 mulheres brasileiras já fez aborto. (CFEMEA)
-O aborto clandestino causa 602 internações diárias e é a terceira maior causa de morte materna no Brasil. (CFEMEA)


E, mesmo com toda essa situação alarmante em torno dos óbitos maternos, só há 8 propostas voltadas para a livre determinação da mulher sobre o próprio corpo.

E ainda tem gente que não consegue ver, ou prefere não ver, a relação entre a tolha da liberdade individual, esse cerceio em torno da autonomia físico-mental feminina, com o machismo arraigado no tecido social.

É, infelizmente, como disse Flora Tristan: “mesmo o homem mais oprimido pode oprimir outro ser, que é sua própria mulher. A mulher é a proletária do homem”.

Mas as mulheres não serão segmentadas e exploradas para sempre.E é essa necessidade de mudança que move o Feminismo.


(Mari N. e Bia G.)
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A Marcha das Vadias de Fortaleza






A marcha foi incrível.Embora poucas pessoas tenham aparecido(em torno de 150?), e no facebook dizia que cerca de 600 haviam confirmado presença, todas estávamos animadas, e entoávamos gritos constantemente, como: “Se o corpo...se o corpo...se o corpo é da mulher...ela dá pra quem quiser...ela dá pra quem quiser”, ou “A nossa luta é por respeito...mulher não é só bunda e peito.A nossa luta é todo dia...mulher não é mercadoria”, ou “O machismo mata.Estupro não é piada”, e mais “Eu beijo homem...beijo mulher...tenho direito de beijar quem eu quiser”.Um máximo, não?


A marcha saiu do CH da UECE(Universidade Estadual do Ceará) e terminou no Passeio Público, no centro da cidade, um local conhecido por ser o “ponto” de várias prostitutas.Porém, com a reforma da praça, a prefeitura mandou retirar todas as mulheres e travestis do lugar, porque, afinal, a prefeitura de Fortaleza adora atitudes autoritárias e truculentas, como quando permitiu, e se não permitiu, ainda assim, foi conivente, com os policiais que agrediram os professores do município que estavam em greve.Então, adorei quando passamos em frente ao comitê do PT( partido da nossa “querida” prefeita) e reprovamos, tanto em forma de crítica à prefeitura quanto à polícia, a ação contra os professores, que apenas estavam no direito de exigir melhores condições de trabalho e exigir melhor remuneração.


Nós, “vadias” e “vadios”, tomamos a Avenida 13 de Maio( e surgiu o grito: “sexo anal pra derrubar o capital”.Na hora, não entendi.Depois de muito puxar pela memória, percebi que era pra derrubar o capital simbólico dos homens, porque o sexo anal é visto como humilhante, a afronta máxima à masculinidade), uma das mais movimentadas da cidade, passamos em frente ao IFCE(Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará), entramos no CH 1 da UFC (Universidade Federal do Ceará), saímos na Avenida da Universidade e seguimos, mesmo entre ameaças de atropelamento, até o Passeio Público, passando antes pela Faculdade de Direito(UFC), Praça da Bandeira( onde convidamos as pessoas com o grito: “Vem!Vem!Vem pra luta, vem, contra o machismo!”), Praça da Igreja do Carmo( e lá cantamos: “Se o papa...se o papa...se o papa pegasse bucho, o aborto seria luxo” e “Eu não me meto na sua fé...tenho direito de transar com quem eu quiser”) e a penúltima parada foi na Praça do Ferreira, onde muitos homens se sentiram no direito de lançar olhares de condenação e risadinhas sacanas para as garotas que estavam de sutiã ou fazendo topless.Essa é a negação à livre determinação sobre o corpo da mulher que vivemos todos os dias, seja na esfera pública ou privada.

Caminhamos durante horas e horas.Nem sei ao certo quantos milhares de metros.Mas valeu a pena.Nada paga a expressão das pessoas ao ver que nós, tanto alunos(as) quanto professores(as), estávamos protestando contra algo tido como banal, e até natural: a violência contra mulher, um produto direto do machismo, assim como é a homofobia.Era difícil não sentir emoção naquele corpo de pessoas que reclamavam o direito da liberdade individual feminina, da autonomia existencial, da essencialidade.


A marcha levava consigo várias idéias embutidas, e uma delas era o novo papel da mulher, agora como sujeito da ação, como elemento de transformação social.Não mais o papel objetificado, instituído por normas de gênero.Não mais o papel restrito à vassalagem.Não mais o papel que os programas de humor que não sabem fazer humor adoram imputar à mulher.Instituíamos, ali, o papel de ser livre, de ser portador de direitos, de ser capaz de escolher aquilo que nos apraz. E ao ouvir aqueles gritos que exigiam respeito, exigiam igualdade, eu senti orgulho, um imenso orgulho de ser mulher, de ser feminista e de estar na luta com elas.

A questão crucial da marcha não era a aprovação das pessoas que nos viam, na rua, segurando cartazes, ziguezagueando entre os carros, cantando palavras de ordem, suadas depois tanto andar, mas sim mostrar que a violência sexista não é normal, e não deve nem vai ser mais aceita.E que ainda existem pessoas capazes de sentir empatia pela causa.E sim, para a infelicidade dos machistas de plantão, o Feminismo vive.E nossa marcha foi inteiramente feminista, em cada parte integrada, em cada gesto firme, em cada olhar animoso.Tínhamos noção sobre a necessidade da erradicação do machismo, e de como esse machismo havia sido cristalizado, além das ferramentas usadas para continuar perpetrando-o por entre as teias sociais.


Sentimos, muitas vezes, os olhares atravessados, as palavras de escárnio, a reprovação velada.E pensávamos, no mesmo instante, que era exatamente aquilo que desejávamos desarreigar da sociedade.Era aquele pensamento mesquinho, voltado para a cisão social (masculino x feminino), que precisava urgentemente desaparecer, porque era dele que se originavam as piores ações de opressão, de resguardo da esfera servil da mulher.



Já no Passeio Público, uma das organizadoras, professora da UECE, fez um discurso sobre a origem da praça, o que ela significava, o porquê da marcha terminar naquele lugar, e a importância do reconhecimento da autonomia da mulher.Foi muito bonito o discurso.Depois, foi a vez da Lola, professora da UFC e blogueira feminista (http://escrevalolaescreva.blogspot.com/), discursar, e ela nos contou sobre a ameaça de processo que sofreu do Marcelo Tas após fazer críticas ao CQC quando alguns membros do programa criticaram a amamentação e teceram comentários depreciativos em relação ao corpo da mulher.E, logo após ouvir a Lola, nós entoamos o grito: “Somos todas Lola”, como apóio ao momento que ela está passando.Para fechar, outro professor da UECE discursou, reforçou a importância da marcha, ainda mais pelo contexto no qual ela estava inserida, o pós-morte de um casal de lésbicas no bairro Genibaú.





É, a marcha foi incrível.E mais uma coisinha a acrescentar:

“Se cuida, ô seu machista, a América Latina vai ser toda feminista”


(Mari N.)
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Tirinha anti-machismo: a reação





"É na lógica da economia das trocas simbólicas - e , mais, precisamente, na construção social das relações de parentesco e do casamento, em que se determina às mulheres seu estatuto social de objetos de troca, definidos segundo os interesses masculinos, e destinados assim a contribuir para a reprodução do capital simbólico dos homens -, que reside a explicação do primado concedido à masculinidade nas taxonomias culturais.O tabu do incesto, em que Lévi-Strauss vê o ato fundador da sociedade, na medida em que implica o imperativo de troca compreendido como igual comunicação entre os homens, é correlativo da instituição da violência pela qual as mulheres são negadas como sujeitos da troca e da aliança que se instaura através delas, mas reduzindo-as à condição de objetos, ou melhor, de instrumentos simbólicos da política masculina: destinadas a circular como signos fiduciários e a instituir assim relações entre os homens, elas ficam reduzidas à condição de instrumentos de produção ou de reprodução do capital simbólico e social" - BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina.Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.



(Mari N. e Bia G.)
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Tirinha anti-machismo: a constatação




Sim, a maioria dos homens ainda têm essa visão conservadora, dominadora, que reforça a objetificação feminina e imputa, às mulheres, padrões de conduta situados em uma posição de subserviência social.


(Mari N. e Bia G.)
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Para um bom entendedor...





Qual é mesmo a graça em fazer um humor que apenas tem como intenção a manutenção do status quo?


Humor transgressor ninguém quer, né?


(Mari N. e Bia G.)
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