A marcha das vadias de Fortaleza o desafio da mulher Aborto Livre Reflexão política no Brasil
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Dia das mães


É inegável que haja uma interferência direta das forças de mercado(até porque o mercado é um espaço não concreto), onde as próprias datas ganham significações dissonantes das proposições ideológicas iniciais.O Dia Internacional da Mulher e, hoje, o Dia das Mães, por exemplo, foram tomados, em grande parte, pelo empresariado, como um momento de incentivo ao consumismo e manutenção dos papéis de gênero(comerciais sobre cosméticos; comerciais sobre produtos de limpeza; comerciais sobre eletrodomésticos).E eis que a mídia perpetra, gritando novamente: mulheres, vocês nasceram com o gene de escravas sociais, conformem-se(nem um pouco determinista, não é?).


As propagandas colocam sempre a mulher no papel de subserviência: ela, alegre e sorridente, recém invadida pela sensação de completude, só porque recebeu um novo fogão.Mas que mulher não ficaria, afinal?Somos apenas a extensão da cozinha, ora pois.E por que ela não seria tão arrebatada pela felicidade ao ganhar uma rosa(símbolo que reflete a idéia de fragilidade) ou algum objeto voltado para a manutenção da casa?Esse negócio de querer mandar em si é coisa de feminazi( não é, machistinhas?).


Não é difícil imaginar como se deu e o porquê se deu, no contexto social, a subalternização da mulher.O arquétipo da mulher ainda está intimamente ligado ao instinto maternal e às virtudes da boa esposa.Nota-se que, ao se reportar à figura mulher, o espaço privado é o limite de sua caracterização.Uma relação privado-mulher como união natural e funcional.E, advindo desse processo de estruturação da imagem mulher, o próprio conceito liga-se à proposição do patriarcado no que toca a autonomia feminina.Se a mulher é edificada pelo ambiente privado, um lugar puramente particular, com articulações próprias, restritas à família, sendo endossada por uma moral de ranço machista, fica mesmo difícil imaginar por que ainda somos encaradas como propriedades e extensões?


Em contrapartida, não há somente o segmento econômico(benéfico ao patriarcado) endereçando esses marcos.O Dia 8 de março foi proposto pela revolucionária alemã Clara Zetkin durante a conferência internacional das mulheres socialistas.É uma data de visibilidade e luta pela transformação do status atual, que reserva um papel secundário à mulher.É tanto que as ações efetivas, da Marcha Mundial das Mulheres, no combate à pobreza e à violência sexista, começa exatamente nesse dia.Não se pode resumir a data à idéia de comemoração sem sentido com o intuito único de provocar as forças de demanda.Isso seria reducionismo e descaracterização de toda a luta dos grupos feministas ao longo do tempo.


O que a mídia faz é vendar a mulher diante de uma realidade desigual e opressora.E aí chegam com flores( novamente para simbolizar nossa “delicadeza”), dão parabéns, falam sobre as virtudes da boa mulher, mas não inseminam a desconstrução dos papéis de gênero em sua esfera de atuação social.


A luta feminista não está atrelada unicamente à conquista no mercado de trabalho.Entretanto, partindo de uma concepção macro, é importante a expressão da mulher nas mais diferentes esferas da sociedade, até mesmo para que possamos criar a nossa identidade.E a conquista é conseqüência da conscientização da mulher como ser autônomo e apto a afluir em qualquer âmbito, mostrando que ela é livre e tem escolhas, tanto sobre o próprio corpo quanto sobre as diretrizes de comportamento social.


Se lermos “A mística feminina”, da Betty Friedan, vamos vislumbrar como essa satisfação na esfera doméstica foi um condicionamento de anos( mito de feminilidade), e que era justamente por isso que as mulheres estavam, cada vez mais, tolhidas, incapazes de abrir o leque de possibilidades para a vida.Ela mostra a relação de hierarquização de sexos e o processo de segregação paradigmático.E, através da análise da realidade feminina, ela constata que as amarras estão na cristalização do papel da mulher atrelado à concepção do feminino, unicamente nas figuras de esposa e dona de casa.Sempre a mulher atrelada, invariavelmente, ao mito do amor materno, como fosse o caminho da felicidade para todas nós.



Sempre o mito maternal, não?

- Para os machistas, somos vaginas/úteros ambulantes.

-Para os machistas, somos a extensão da casa.

-Para os machistas, somos seres dependentes(e também por que somos só emoção, não é?Olha o determinismo aqui de novo).

-Para os machistas, somos sempre as Evas malditas seduzindo homens indefesos.

-Para os machistas, somos apenas um pedaço de carne que é passível de intervenção externa.



Por isso, obviamente, esperam que todas as mulheres queiram e tenham filhos, porque, para a maioria machista, esse é o desígnio delas no planeta.E falam em instinto maternal como se realmente fosse algo intimamente ligado à mulher.E, para deixar claro, instinto maternal não existe.Isso é um determinismo biológico usado para jogar o ônus da responsabilidade sobre a criação dos filhos somente em cima das mulheres.O amor é natural, portanto leva tempo para ser construído, não nasce em um intervalo de 24 horas.A população feminina, em sua totalidade, não sonha com a maternidade.Algumas mulheres nem pensam nisso.E não, no inconsciente delas não está aprisionada a vontade de ser mãe.É só algo muito importante chamado de liberdade individual.


Novamente, vendem a idéia de que a mãe, naturalmente, ama mais os filhos que os pais porque é mais sensível( determinismo biológico de novo, não?).E por que isso acontece? Porque o machismo condiciona, inclusive, o homem.Ele é treinado para reproduzir um padrão de “macheza” baseado na ignorância, dominação e violência.E isso é fruto de educação sexista.A questão é que tanto as mulheres quanto os homens foram educados(as) a fazer a reprodução de valores sexistas, e acabam realizando a manutenção do padrão de masculinidade, que imputa, aos homens, a inexistência de sentimentos humanos.Outras falácias: a mãe tem uma responsabilidade maior na criação dos filhos; a mãe deve ser um exemplo de moral (dentro dos paradigmas, claro); a mãe tem que viver somente para o filho, sem ter uma vida sentimental, profissional e social satisfatórias; a mãe que pára de amamentar cedo é uma monstra; a mulher que não quer ser mãe e aborta é assassina( tudo bem ela não poder decidir sobre o próprio corpo, não é?); a mulher que não quer a guarda dos filhos é uma monstra sem coração.Eu poderia passar a noite citando exemplos, mas acho que já é suficiente.


E, embora não pareça, tudo isso é para desejar um Feliz dia das Mães.Sim, eu sei que parece contraditório.Mas só o que quero é a carta de alforria para essas mães que são tratadas como escravas por grande parte da sociedade.Desejo que elas tenham direito à liberdade individual.Desejo que não sejam enxergadas como objetos.Desejo que tenham seus direitos assegurados.Desejo que sejam respeitadas.Desejo que essas mães não sejam vistas como mártires nem tenham a obrigação de carregar o peso dos norteadores de conduta.


Só para concluir, e retomando o que disse no começo: a interferência das forças de mercado estão contra a mulher, pois visa recolocá-la na posição servil.A mídia faz reprodução de valores sexistas todos os dias.O empresariado gosta da inexistência de uma consciência sobre o papel da mulher na sociedade.E gosta porque pode direcioná-la para o segmento que eles acham necessário, em acordo com seus benefícios financeiros, inclusive a idéia que define o que é uma mãe.


E as mulheres feministas( e sim, machistinhas, sinto informar, mas mulheres feministas também podem ser mães, desde que assim desejem) fazem a desconstrução desses valores para desarticular o papel da classe dominante e pôr fim ao condicionamento sobre a mulher.Enquanto feministas, absorvemos a ideologia da autonomia pessoal(ex: cabe à mulher escolher ser ou não mãe).E somos plenas nessa luta de mulheres por mulheres.Somos incessantes na batalha pela igualdade.



Então, Feliz dia das Mães!




(Mari N.)

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União civil homoafetiva





Hoje, dia 5 de maio de 2011, por unanimidade, os ministros do STF reconheceram a união estável homossexual.Finalmente, o Brasil avança rumo à isonomia social. Obviamente que ainda há muito a galgar dentro de uma sociedade empestada por paradigmas, que cultua um padrão de macheza e distila ódio a tudo que se volta para a desconstrução e emancipação. Infelizmente, há uma clara mistura entre os preceitos religiosos e a laicidade que deveria se sobrepor a qualquer sistema de crenças.E isso atrasa bastante a tentativa de equiparar direitos, que deveriam obedecer à premissa fundamental de indistinção.A lei está para nos servir.E não é servir para permear um processo segregativo, estratificando a sociedade entre cidadãos de primeira e segunda classe.Mas para garantir a todos o direito à dignidade humana, o direito à felicidade.E, nessa questão, o STF foi impecável.


A proposição de uma normatização heterossexual permeada pelas igrejas(não todas, mas a grande maioria), pela mídia, pelas famílias machistas e homofóbicas, pela bancada evangélica(que nem deveria existir em um Estado Laico), pelos políticos reacionários (bolsonaros da vida), vai sofrer retroação e abrirá espaço para a cristalização da decisão condizente com os princípios da ética e não com a ignorância autocrática.Não há mais espaço para reafirmar estupidez.Não há mais tempo para levantar bandeiras de retrocesso.Binômios de praxes sexuais não devem mais nortear qualquer nicho social.O Estado constrói, gradativamente, a cerne de sua laicidade.


Vemos, agora, que não se pode mais convocar imperativos comportamentais, que só visam manter o status quo, para estabelecer a idéia de cidadania. Somos mais que mecanismos de viés biológico. Somos seres sociais. Somos seres culturais. Somos seres pensantes. Mas antes de tudo, somos seres apaixonados. E o amor é multifacetado. E ele soergue elementos que estruturam a diversidade, dando ressignificação a tudo que existe e dando consistência à liberdade individual e legitimação à diferença.



Eu não entendo muito sobre nosso sistema burocrático.Pouco sei sobre as ferramentas de efetivação jurídica.Mas sei que união estável não é a totalidade dos direitos dos homossexuais.Eles querem o casamento civil.E não, não é o sonho de entrar na igreja usando véu e grinalda, como muitos ignorantes adoram reverberar por aí.Quem perpetra essa falácia sobre casamento civil é um ruminante, portanto volte ao pasto e não regurgite os preconceitos encapados como argumentos.

A união estável garante apenas a divisão parcial de bens por intermédio de uma ação judicial que comprove a relação valendo-se de provas (fotos, testemunhas, cartas, coisas em comum) para corroborar o processo de reconhecimento. Até mesmo o pleito aos direitos, em caso de separação, só é concebido quando a sentença é favorável e a união é reconhecida.Já no casamento civil, e reitero que não tem nada de religioso, apresenta uma gama de direitos(comunhão parcial de bens; separação de bens; comunhão total de bens; e não há necessidade de provar a relação) que ainda são negados aos homossexuais.
A ausência da lei anti-homofobia(PL 122/2006, que pode ser estendida para criminalizar, inclusive, algumas ações machistas: "Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, origem, condição de pessoa idosa ou com deficiência, gênero, sexo, orientação sexual ou identidade de gênero.") ainda é tabu e tramita no congresso. Espero que seja aprovada e constitua uma ação macro de rearticulação social.


E também espero que muito dos religiosos, que se autodenominam donos da verdade, quando até a idéia da verdade em si é questionável, possam finalmente calar a boca e aceitar que o Estado é um axioma plurilateral.


Registro, aqui, meu contentamento com a decisão do STF, e com muitas colocações feitas por seus integrantes, com exceção de uma argumentação vaga, dúbia, sem objetividade, do ministro Gilmar Mendes( que ainda tratou homossexualidade como opção) e o falso moralismo do Ricardo Lewandowski( que acha que há direitos reservados unicamente a relações formadas por pessoas de sexo oposto).


Embora algumas múmias conservadas no preconceito componham o STF, achei a maior parte das alegações elucidativas, como a dos ministros Carlos Ayres Britto, Luiz Fux, Marco Aurélio e Celso de Mello, e as ministras Ellen Gracie e Cármen Lúcia.


"Toda pessoa tem o direito de constituir família, independentemente de orientação sexual ou identidade de gênero. Não pode um estado democrático de direito conviver com o estabelecimento entre pessoas e cidadãos com base em sua sexualidade. É inconstitucional excluir essas pessoas.”

"A República é laica e, portanto, embora respeite todas as religiões, não se pode confundir questões jurídicas com questões de caráter moral ou religioso."

"Não existem razões de peso suficiente que justifiquem discriminação no que tange às uniões estáveis. Pelo contrário, pela Constituição, há a valorização do afeto, do amor, da solidariedade. Não há razão alguma para exclusão da união homoafetiva."

(Celso de Mello)



“Onde há sociedade há o direito. Se a sociedade evolui, o direito evolui. Os homoafetivos vieram aqui pleitear uma equiparação, que fossem reconhecidos à luz da comunhão que tem e acima de tudo porque querem erigir um projeto de vida. A Suprema Corte concederá aos homoafetivos mais que um projeto de vida, um projeto de felicidade.”

(Luiz Fux)


“O reconhecimento hoje pelo tribunal desses direitos responde a grupo de pessoas que durante longo tempo foram humilhadas, cujos direitos foram ignorados, cuja dignidade foi ofendida, cuja identidade foi denegada e cuja liberdade foi oprimida. As sociedades se aperfeiçoam através de inúmeros mecanismos e um deles é a atuação do Poder Judiciário.”

(Ellen Gracie)


“Aqueles que fazem a opção pela união homoafetiva não podem ser desigualados da maioria. As escolhas pessoais livres e legítimas são plurais na sociedade e assim terão de ser entendidas como válidas. (...) O direito existe para a vida não é a vida que existe para o direito. Contra todas as formas de preconceitos há a Constituição Federal.”


(Cármen Lúcia)


“A familia é a base da sociedade. Não é o casamento. É a família, núcleo doméstico, de heteros ou homos. A Constituição não distingue gêneros masculino e feminino, não faz distinção em relação a sexo. Logo, nem sobre orientação sexual. Não existe família pela metade, família de segunda classe. Casamento civil e união estável são distintos, mas os dois resultam na mesma coisa: a constituição de uma família. Não se pode alegar que os heteros perdem se os homos ganham.”


“Preconceito é um conceito prévio, engendrado pela mente humana fechada em si mesma e, por isso, carente de argumentos sólidos. Não reconhecer a união homoafetiva é uma brutal intromissão do Estado sobre trocas de afeto e de desejos.”


“Afinal, se as pessoas de preferência heterossexual só podem se realizar ou ser felizes heterossexualmente, as de preferência homossexual seguem na mesma toada: só podem se realizar ou ser felizes homossexualmente.”


“O que significa o óbvio reconhecimento de que todos são iguais em razão da espécie humana de que façam parte e das tendências ou preferências sexuais que lhes ditar, com exclusividade, a própria natureza, qualificada pela nossa Constituição como autonomia de vontade.”


“A ausência de lei não é a ausência do direito”


“A constituição estabelece que não pode haver qualquer forma de discriminação, incluindo o que se refere às escolhas sexuais”


(Carlos Ayres Britto)



E o que muda?

-Somar renda para aprovar financiamentos
-Somar renda para alugar imóvel
-Direito à impenhorabilidade do imóvel em que o casal reside
-Fazer declaração conjunta do IR
-Reivindicar os bens comuns, móveis ou imóveis, doados ou transferidos pelo outro companheiro ao amante
-Solicitar o seqüestro dos bens do casal, caso o companheiro os estiver dilapidando e estiverem dissolvendo a união
-Reconhecida a união estável
-Adotar sobrenome do parceiro
-Acompanhar o parceiro servidor público transferido
-Garantia de pensão alimentícia em caso de separação
-Assumir a guarda do filho do cônjuge
-Adotar o filho do parceiro
-Poder ser inventariante do parceiro falecido
-Visita íntima na prisão
-Alegar dano moral se o parceiro for vítima de um crime
-Proibir a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem do companheiro falecido ou ausente
-Segredo de justiça nos processos que se referirem a qualquer coisa que esteja discutindo a união ou separação
-Autorizar cirurgia de risco
-Herança

Benefícios

-Inscrever parceiros como dependentes da previdência
-Receber abono-família
-Receber auxílio-funeral
-Incluir parceiros como dependentes no plano de saúde
-Ter licença-maternidade para nascimento de filho da parceira
-Ter licença-luto, para faltar ao trabalho na morte do parceiro
-Participar de programas do Estado vinculados à família
-Inscrever parceiro como dependente de servidor público

Fonte referente ao que muda na atual composição: http://oglobo.globo.com/pais/info/uniao-homoafetiva/default.asp



Preciso dizer mais alguma coisa?

Parabéns à maioria dos ministros do STF.
E parabéns aos homossexuais brasileiros.
Espero que todos vocês tenham um caminho repleto de vitórias.



(Mari N.)
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Metafísica VI



Ana Akhmátova, pseudônimo de Ana Andreevna Gorenko, nasceu nos arredores de Odessa em 23 de junho de 1889 e faleceu nos arredores de Moscovo em 5 de março de 1966.Foi um dos grandes nomes da poesia modernista russa.



O CANTO DO ÚLTIMO ENCONTRO

Sentia-me sem forças, gelada,
mas os meus passos eram leves.
Na mão direita tinha a luva
da mão esquerda, ao partir.

Eram realmente tantos degraus?
Eu sabia que eram só três!
O outono abraçava os plátanos
e murmurava:"Morre comigo!"

É o meu destino
que me enganasse e me traísse.
Eu respondi: "Oh, meu amor!
Eu também...Contigo morrerei..."

Este é o canto do último encontro.
Olhei para a casa escura,
Só no meu quarto, amarelo e indiferente,
ardia o fogo das velas.





VINTE E UM.NOITE.SEGUNDA-FEIRA.



Vinte e um. Noite. Segunda-feira.
A silhueta da cidade na neblina.
Algum desocupado inventou
essa história de que há amor no mundo.
E por preguiça ou por tédio,
todos acreditaram nele e assim viveram:
esperando encontros, temendo ruturas
e cantando canções de amor.
Mas a outros será revelado o segredo
e sobre estes recairá o silêncio...
Eu tropecei nele casualmente e, desde então,
sinto-me como se estivesse doente.



ÚLTIMO BRINDE

Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz,
À solidão dos abraços
E a ti, num brinde, ergo a voz...
Ao lábio que me traiu,
Aos mortos que nada vêem,
Ao mundo, estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém.
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A história do Carnaval



O Carnaval é uma data comemorativa que reproduz um conjunto de elementos culturais de cada segmento da sociedade, onde há maior integração social, pois se tem arraigado um ideal permanente de permissividade.Ao longo do tempo, a palavra Carnaval sofreu transformações de sentido.


As primeiras expressões carnavalescas são heranças das civilizações Greco-Romanas e Mesopotâmicas.Os representantes do Cristianismo consideravam qualquer ritual, folguedo, festival, Carnaval, como festas idênticas e condenáveis por terem raízes pagãs.

Entretanto, houve uma delimitação da data Carnaval como uma marca de período anterior à Quaresma, instituindo uma lógica de desapego à carne e servindo como embasamento para os paradigmas comportamentais estipulados pela Igreja Católica.Então, gradativamente, a festa foi tomando uma construção voltada para a liberdade, para os excessos, contrariando toda norma de conduta diária.


A festa Carnavalesca representava, na Idade Média, um período de abundância e diversão, onde eram estimulados a todos os tipos de prazeres.Hoje, esse ideal permissivo continua.Na sociedade brasileira, cristalizou-se como uma fase comemorativa voltada para a auto-satisfação.Nota-se isso, claramente, nas bebedeiras, brincadeiras excessivas, desproteção, desapego ao bem-estar individual e coletivo.


O caráter econômico do Carnaval tomou forma ainda na Idade Média, pois tanto os senhores de terra quanto a Igreja apoiavam a comemoração em compensação do pagamento de taxas.Mais tarde, o desenvolvimento das expressões carnavalescas ficou a encargo da Itália, no século XVI, durante o Renascimento.

Neste ponto, percebe-se um processo de individualização maior, que antes era coletivizado, com exteriorizações culturais mais particulares, com remonte das evoluções dentro da sociedade, principalmente as relacionadas ao crescimento populacional dos centros urbanos.Vê-se, também, o Carnaval como um elo entre o povo e o governante, já que permitia o contato direto entre esses dois.

O poder do governante era ressaltado, de modo a tornar sua imagem amada pela população. Havia, inclusive, a expressão da religiosidade, tomando como base as principais fantasias, que , invariavelmente, faziam referência a figuras bíblicas, virtudes e pecados.A figura do Carnaval tornou-se, pois, intrínseca à política e à economia.

Já no século XIX, a França foi estabelecida como reduto mundial do Carnaval.Sua festa imponente, cheia de nuances, com mistura entre as diferentes vertentes sociais, fez com que virasse referência.Inspirou diversos países na construção cultural de seus carnavais.Paris consagrou-se.E, junto com ela, a burguesia.



No Brasil, inicialmente, o jogo do Entrudo, trazido por colonizadores portugueses, foi o principal símbolo do festejo nacional.Era difundido em todas as regiões do país.
Entretanto, era considerado um jogo brutal, pois baseava-se em lançar líquidos, sejam estes perfumes ou substâncias sujas, nas outras pessoas.

Havia diferentes formas de Entrudo, caracterizando-se na esfera privada e pública.Esse tipo de jogo tem uma semelhança clara com certas brincadeiras atuais, como o “mela-mela”.Contudo, no século XIX, a nova sociedade brasileira queria uma festa moderna, que revelasse o status de país independente, e buscou esse vínculo no Carnaval francês.

No Rio de Janeiro, os bailes de máscaras privados, eventos exclusivos, eram destinados à elite.Exprimia-se, desta forma, a estratificação social e econômica da sociedade brasileira.

Já em 1856, começaram os desfiles de grupos pelas ruas cariocas.As principais cidades brasileiras foram incorporando esses valores. Em Fortaleza, por exemplo, em 1883, a Sociedade Carnavalesca Dragões de Averno desfilou pela primeira vez.Logo, Rio de Janeiro tornou-se um eixo do Carnaval, e ainda hoje o é, porque representava a essência do brasileiro. Gradativamente, cada região foi configurando suas manifestações carnavalescas, tornando-as cada vez mais particulares.

Conclui-se que o Carnaval, para a sociedade brasileira, virou expressão de brasilidade.O país pára durante seu acontecimento.As pessoas vivem aquele momento de euforia.A data configurou-se como uma espécie de identidade cultural.E há uma riqueza incrível.Cada região mostra-se autônoma durante o período festivo.Indiscutivelmente, o Carnaval é uma festa mutável, que assume novos modelos, arrasta multidões de pessoas e mexe com todos os âmbitos da sociedade
.


Bibliografia: FERREIRA, Felipe. O livro de ouro do carnaval brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.


(Mari N.)
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Metafísica V


Álvaro de Campos é um dos heterônimos de Fernando Pessoa.Diria que o seu melhor personagem.Álvaro nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890.Recebeu uma educação "vulgar" no Liceu, e depois foi estudar engenharia na Escócia(primeiramente, a mecânica e, posteriormente, a naval).A tendência de repartir os cabelos lisos para um lado, e o biótipo judeu-português, eram características marcantes no processo de materialização física, tornando-o cada vez mais próximo da realidade.



Depois de formado, retornou a Lisboa, onde viveu em inatividade.Não suportava as regras e funcionalidade dosempregos .Álvaro não lidaria com qualquer tipo de confinamento, qualquer tipo de redoma. Dotado de espírito livre.Mas nunca se sentia parte de algo.Um viajante.E, em uma dessas suas vagâncias, conheceu o Oriente, onde escreveu Opiário.

Apresentou três fases literárias, diferenciando-se e destacando-se entre os outros heterônimos.


1ª fase: simbolismo decadentista

2ª fase: futurista

3ª fase: pessimista



A data de morte é desconhecida.







      POEMA EM LINHA RETA

    Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
    Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

    E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
    Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
    Indesculpavelmente sujo,
    Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
    Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
    Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
    Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
    Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
    Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
    Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
    Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
    Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
    Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
    Para fora da possibilidade do soco;
    Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
    Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

    Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
    Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
    Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

    Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
    Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
    Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
    Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
    Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
    Ó príncipes, meus irmãos,

    Arre, estou farto de semideuses!
    Onde é que há gente no mundo?

    Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

    Poderão as mulheres não os terem amado,
    Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
    E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
    Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
    Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
    Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.



    ESTOU CANSADO


Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.



MAS EU

Mas eu, em cuja alma se refletem
As forças todas do universo,
Em cuja reflexão emotiva e sacudida
Minuto a minuto, emoção a emoção,
Coisas antagônicas e absurdas se sucedem —
Eu o foco inútil de todas as realidades,
Eu o fantasma nascido de todas as sensações,
Eu o abstrato, eu o projetado no écran,
Eu a mulher legítima e triste do Conjunto
Eu sofro ser eu através disto tudo como ter sede sem ser de água.



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Aborto Livre


É preciso mesmo dizer que determinar sobre o próprio corpo é um direito de toda mulher?



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Cinema: Mary e Max, uma amizade diferente




Mary e Max – Uma Amizade Diferente é uma animação baseada na técnica stop motion, em que cada cena é fotografada quadro por quadro. O longa é inteiramente moldado a base de argila: as cenas, os personagens etc. Estilo, ainda que arcaico comparado ao revolucionário 3D, atrai um bom público entre os amantes da arte cinematográfica da animação. Adam Elliot é o responsável pela direção e roteiro do filme cujo gênero se enquadra como drama e comédia.

Elliot é um renomado escritor e diretor de animação, sempre prezando pela confecção tradicional de seus filmes, entre longas e curtas, não se utilizando de adicionais digitais ou imagens geradas por computador para melhorar a estética visual. Ganhou Oscar de melhor curta por Harvie Krumpet e vários prêmios de festivais pelo mundo por Mary e Max.

A candura curiosidade de Mary foi o que moveu os primeiros contatos com Max ao sortear um nome num livro dos correios. Era uma garotinha de oito anos, australiana e movida por uma sensível solidão. Tem uma mãe alcoólatra e cleptomaníaca. Costuma contar à filha que sua bebida era um tipo de “chá para adultos” e que “pegava emprestado” alguns produtos da prateleira do supermercado para “economizar sacolas”.


Já o pai era um comprometido com seu trabalho e viciado em seu hobbie: a taxidermia. Geralmente não desfrutava muito tempo com Mary. Seus únicos amigos eram “Os Noblets”, bonecos do seu desenho animado favorito feitos por ela mesma com conchas, goma e pompons e um galo que nomeou como Ethel.


Enquanto isso, Max, em Nova York, também apreciava Os Noblets por representarem uma estrutura social articulada em constante conformidade partidária e por terem muitos amigos. Aos 44 anos de idade, tinha muito em comum com a menina que acabara de conhecer através de uma carta.Além d’Os Noblets, adorava chocolate e o único amigo era imaginário.


A vasta diferença etária entre os interlocutores pode causar um impacto à primeira vista ao relacionar este fato à pedofilia, gerando preconceito. Isto se concretiza, até mesmo, por meio da mãe de Mary que não aceitará que sua filha tenha amizade com um “doente” do outro lado do mundo.Todavia, o foco primordial do longa não se trata de perpetuar tal preconceito reducionista, mas remodelar a mentalidade das pessoas através da construção de uma amizade tão pura quanto a de Mary e Max.


Max era passível de uma grande dificuldade em compreender as pessoas da cidade onde vivia, tinha uma mentalidade compassivamente lógica e literal, não entendia o motivo dos seres humanos organizarem toda uma estrutura de leis que visassem um saudável convívio entre as pessoas e o meio onde viviam se nem elas mesmas as seguiam. Freqüentemente perdia o controle em crises de ansiedade ao ser confrontado com algo novo. Participava de reuniões de comedores compulsivos anônimos, o que o deixava ainda mais ansioso, pois se sentia pressionado pelas reuniões a evitar quebrar as suas “regras”. Max também se sentia desconfortável ao se questionar a respeito da existência.

A singularidade do filme baseado em uma história real (inspirado por um amigo de correspondência novaiorquino, segundo o diretor australiano) é o encanto de como é tratado o entrelaçar das vidas dos dois protagonistas, de forma que a inocência se revela através da interpretação das correspondências feita por cada um com o passar dos longos vinte anos de uma improvável amizade.






Trailer:





(Bia G.)
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Machismo patológico



Nos últimos dias, uma notícia ridícula vem sendo vinculada na internet.A fonte não é em nada confiável.E não fico surpresa com a quantidade de sites misóginos perpetrando-a.Infelizmente, essa passagem mentirosa tem destilado ódio contra as feministas.Que fique bem claro que a entrevista com essa suposta feminista, Helena Ramirez, nunca aconteceu.E que fique claro, também, que Helena Ramirez não é conhecida em nenhuma vertente do Movimento Feminista.O nome de uma pessoa inocente foi usado para vomitar machismo.Espero que, um dia, essa mulher, ao saber que algum misógino de plantão atrelou seu nome a notícias caluniosas, tome as devidas providências.Segue o excerto da suposta entrevista:



"A líder do movimento feminista no Brasil chocou a audiência da TV Globo ao dizer em recente entrevista ao humorista Jô Soares que “mulher que se submete a fazer sexo na vexatória posição ‘de quatro’ está jogando no lixo as décadas de luta das mulheres conscientes”.
A entrevistada sugeriu que as mulheres quando fossem fazer sexo optassem por sempre que possível ficarem por cima, para poderem olhar nos olhos dos homens de igual para igual. Helena ainda afirmou que o homem latino tem fetiche por dominação, por humilhar a mulher. Para ela “quem se coloca ‘de quatro’ se anula como mulher, vira apenas um receptáculo de líquido seminal. Ou seja, não vale porra nenhuma…”
Outro ponto polêmico da entrevista foi quando o entrevistador a questionou sobre sexo anal, ela foi enfática ao dizer que ‘homem que busca sexo anal em relação hetero está fazendo estágio pra virar ‘viado’, esposa que alimenta este fetiche está na verdade ajudando ainda mais a reduzir a oferta que já não é das melhores”.




Coincidência esse ódio contra as feministas?Só posso dizer que não.É um ódio antigo que só mudou o veículo de informação.É mais uma tentativa de minar a luta pela equidade.As feministas, realmente, incomodam, fazem barulho, e estão desconstruindo, ainda que gradativamente, o paradigma comportamental.E isso estimula a raiva dos machistas, tanto que eles precisam declarar guerras virtuais, vinculando falácias.

Nós, feministas, não estabelecemos uma norma de conduta sexual.As pessoas são livres para realizar suas fantasias, desde que seja de comum acordo.Nós, feministas, não achamos que sexo é algo deplorável para a mulher.Isso é coisa de machista que acredita que mulher não sente desejo, não sente prazer.Machista é que adora vigiar a vida sexual das mulheres.

Nós, feministas, não queremos dominar os homens.Nós queremos igualdade.Nós, feministas, lutamos contra qualquer tipo de opressão baseada em normas de gênero.Não entregamos cartilhas para estabelecer um padrão na intimidade.Isso é ridículo.Somos contra o padrão que objetifica a mulher.Por isso, ela deve ter liberdade de conduta.Deve fazer aquilo que lhe proporcione prazer.



A mulher sabe, na relação sexual, o que lhe agrada, e, portanto, é responsável pela decisão.O Feminismo é, antes de tudo, um caminho para se libertar das convenções propostas pelo senso comum, que reserva um papel secundário à mulher e torna-a dependente dos conceitos limítres que compõem as regras de comportamento.


Esse perseguição só mostra que as feministas estão no caminho certo.Mesmo diante das dificuldades, seja em âmbito pessoal ou coletivo, nós continuamos, quase em um trabalho de formiguinha, tentando desarraigar os paradigmas de gênero.Então, sinto avisar, aos machistas, que sim, a luta feminista é legítima.E orgulho-me de fazer parte dela.




Ser feminista é ser consciente socialmente.E, embora os machistas tentem atrapalhar nossa luta, contra-atacando de forma suja, nós podemos mudar esse status segregativo.E nós vamos lutar sempre.


(Mari N.)
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Florbela Espanca




Em 8 de dezembro de 1894, em Vila Viçosa, Alentejo, nasceu Flor Bela Lobo, filha de João Maria Espanca e Antonia Conceição Lobo, uma das maiores poetisas portuguesas.Embora contemporânea do Movimento Modernista, contrapunha-se a ele por recuperar recursos clássicos da poesia, como o soneto; refletir elementos românticos ao falar sobre a essencialidade do sentimento, o amor; valorizar a musicalidade das palavras, marca do Simbolismo.


Sua poesia é preenchida de nuances, recorrendo a temas como: dor, angústia, mágoa, solidão, amargura, medo,frustração, busca, nostalgia e finitude.A vida de Florbela foi enodoada pela amargura.Era filha “ilegítima” de João Maria Espanca, então casado com Mariana do Carmo Ingleza, que se tornou madrinha da garota.Ele só veio a perfilhar Florbela em 1949, para obter os direitos autorais sobre sua obra.


Florbela vivenciou três casamentos frustrados(com Alberto Moutinho, em 1913; Antonio Guimarães, em 1920; em 1924, com Mário Lage, permanecendo com este até a morte) e isso conjeturou em sua poesia, sobretudo na temática amorosa.Apeles, o amado irmão, três anos mais novo, faleceu em 1927, vítima de um acidente em um dos treinos de pilotagem. Esse foi o golpe mais forte que a poetisa sofreu.Em 1930, Florbela iniciou a escritura do seu diário, o chamado Diário do último ano.E, no mesmo ano, no dia 8 de dezembro, seu aniversário, cometeu suicídio.
É incomum conhecer pessoas que gostem de Florbela Espanca.A maioria nunca ouviu falar.Sua obra é, em grande parte, angustiante, em uma existência não passível de sentido.Costumo dizer que só há duas vertentes possíveis para os amantes, ou dito amantes, dessa maravilhosa poeta: infelizes ou curiosos.Parece duro dizer isso.Florbela era uma confluência de sofrimento.A idéia permanente da impossibilidade da felicidade é um elemento fundamental em sua poesia.E a forma sutil, quase doce, que ela coloca a agonia do substrato vital, dá-nos a sensação de impotência bem-vinda, como se aceitássemos, com dignidade, que somos um paradoxo
efêmero.

Portanto, não há quem simpatize, ame Florbela, sinta catarse, sem ser infeliz.Mas a palavra infeliz pesa.É quase um ônus.Ninguém gosta de se intitular infeliz.Dizem “estou” infeliz, “estou” triste, “estou” miserável.Nunca é sou.É sempre estou, refletindo uma espécie de momento que, por vezes, não chega ao fim.

E cabe, aqui, portanto, a pergunta: o que é a infelicidade?Ou o que seria o seu oposto, a felicidade?Talvez, infelicidade tenha a ver com a busca constante por algo amorfo.Seria, pois, a insatisfação, a incapacidade de viver com o que tem em mãos.Mas o que temos, em mãos, é o subjetivo, a construção da idéia que repousa em um mundo superno, já que tudo é signo.Buscar o sentido da existência pode terminar em sentido algum, ou no pior deles: há, em tudo, uma dose latente de infelicidade.

E o ser que abraça sua infelicidade, sabe sua cerne, não a estigmatiza, não é justamente o ser mais feliz por aceitar sua condição e saber que a desconstrução é a fonte simbiótica da expressão verdadeira?Não é a infelicidade o primeiro passo para permear indagações e contrapor-se ao status?Não seria o choque causado por um processo normativo de disparidade?Não é o sentido das coisas que nos faz percorrer os caminhos mais árduos?E isso lembra Florbela, porque ela era de todo dor.Suas poesias são quase diários, carregadas de tom confessional.Percebemos a carência, a busca irremediável, e a impossibilidade de atingir o ápice.


A poesia de Florbela grita solidão.A infelicidade também.Mas quando falo de solidão, não é um estado de companhia.Refiro-me a um estado de espírito, metafísico, muito além do que podemos definir.Quantos de nós não se sentem incompreendidos, e guardam, para si, a forma de enxergar o mundo, pois é singular?Quantos não evitam os laços por temer a mágoa ou a falta de compreensão?Ou quantos, não sabendo o que é solidão, e amedrontados por uma palavra injuriada, criam laços supérfluos, quase como máquinas que tecem vínculos sociais?Logo, a infelicidade não deveria ser temida.Mas também não deveria ser estimulada.

O processo de ascensão pessoal é a superação da conjunção de histórias, de labores, que vão tomando forma no inconsciente.Porque infelicidade não é no sentido mais asséptico da palavra.

É a reflexão de uma alma confusa, que não sabe o que sonha, não sabe o que procura, mas sente um vazio agudo. Essas são as pessoas capazes de fugir das normas de conduta por tudo aquilo que acreditam.E essa seria a transição entre infelicidade e felicidade; transpor a busca e chegar ao encontro de algo.

Definitivamente, Florbela Espanca é mestre na expressão dos diversos tipos de dor.A capacidade de interpretação sobre o seu mundo gera temas universais, conseqüentemente achegando-se à catarse.Por isso, fica impossível pensar em um amante de Florbela que seja feliz.Como pode haver identificação entre o meu eu e o eu de Florbela se não temos sentimentos, angústias, medos em comum?O que remete ao segundo grupo: os curiosos.São pessoas que amam a poesia, e não tão somente a figura Florbela.São apaixonados pelas p
alavras, mas não simbiotizados por seus temas.

Outra característica interessante da obra da poetisa portuguesa é o papel da mulher, que ocupa encargo central.A mulher é mostrada como um ser humano, onde residem expressões universais.Então, por que aclamar essa característica quando, teoricamente, mulheres são consideradas seres humanos?Simples: ainda hoje, o cinema, a música, a construção da linguagem, são atividades, em maioria, voltadas para o homem, refletindo o status quo, fazendo a manutenção das relações de hierarquia, e não reconhecendo mulher como um ser humano dotado de autonomia.Já disse em vários posts, e direi nesse novamente: a língua é ideológica, assim como os demais ofícios humanos.E Florbela Espanca, impreterivelmente, trabalha a figura feminina, não restringindo o espaço da mulher à esfera privada, com condutas de mãe ou esposa.Florbela opôs-se ao sistema dual da mulher, pois rompeu com as normas da época e tornou-se uma poeta, parte que cabia aos homens, pois era deles a ocupação da reflexão.




Quanto a essa magnífica poetisa, posso dizer que sou apaixonada por seus escritos.Acho-a hábil na inscrição
de temas densos, passados por intermédio da leveza e da auto-crítica.Florbela não nos entrega um bojo carregado de tormentas.Ela nos faz vislumbrar o abstrato.Faz-nos sentar e pensar sobre a pilastra que sustenta nossa existência.Florbela é um perigo.Assim como Clarice Lispector é um perigo.Ambas possuem uma obra particular, singular, marcada pela expressão do metafísico, que pode nos levar a uma desconstrução destrutiva.Você nunca é a mesma pessoa ao acabar a leitura de suas obras.


Obras:


-Livro de mágoas , 1919.
-Livro de “Sóror Saudade”, 1923.
-Charne
ca em flor, 1931
-Charneca em flor, com 28 sonetos inéditos, 1931.
-Cartas de Florbela Espanca(a Dona Júlia Alves e a Guido Battelli), 1931.
-As máscaras do destino, 1931.
-Sonetos
completos, com um estudo de José Régio, 1934.
-Diário do último ano, prefácio de Natália Correia, 1981.
-O dominó preto,
prefácio de Y.K.Centeno, 1982.
-Obras completas de Florbela Espanca, de 85-1986, 8 volumes, edição de Rui Guedes.
-Trocando olhares, Estudo introdutório, estabelecimento de texto e notas de Maria Lúcia Dal Farra, 1994.




Florbela:

“É o casamento um grilhão de flores e risos?De acordo, mas é sempre um grilhão.Ria, pois, e cante com a sua bela alegria, ame doidamente alguém mas nunca abdique nem uma das suas graças, nem uma das suas idéias que lhe fazem vincar a fronte às vezes com uma pequenina ruga de capricho e insolência que fica tão bem às mulheres bonitas; não ajoelhe nunca, porque está nisso o nosso grande mal, o nosso profundíssimo erro.”
(Carlos Sombrio –OC, p. 35)

“O meu talento!...De que me tem servido?Não trouxe nunca às minhas mãos vazias a mais pequena esmola do destino.Até hoje não há ninguém que de mim se tenha aproximado que me não tenha feito mal.Talvez culpa minha, talvez...O meu mundo não é como o dos outros; quero demais, exijo demais ; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem aonde está, que tem saudades sei lá de quê!”
(Carlos Sombrio – OC, p.35)


“A minha vida!Que gâchis!Se eu nem mesmo sei o que quero!”
(Florbela Espanca, Diário do último ano)


“Para que quer esta criatura a inteligência, se não há meio de ser feliz?”, dizia, dantes, meu pai, indignado.Ó ingênuo pai de 60 anos, quando é que tu viste servir a inteligência para para tornar feliz alguém?”
(Florbela Espanca, Diário do último ano)


“Viver é não saber que se vive.Procurar o sentido da vida, sem mesmo saber se algum sentido tem, é tarefa de poetas e de neurastênicos.Só uma visão de conjunto pode aproximar-se da verdade.”
(Florbela Espanca, Diário do último ano)


Referência: (ESPANCA, Florbela. Melhores Poemas; Seleção Zina C. Bellodi)




Poesias



Minha culpa


A Artur Ledesma


Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou?! Um fogo-fátuo, uma miragem...
Sou um reflexo... um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém...

Como a sorte, hoje aqui, depois além!
Sei lá quem sou?! Sei lá! Sou a roupagem
Dum doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem! ...

Sou um verme que um dia quis ser astro...
Uma estátua truncada de alabastro...
Uma chaga sangrenta do Senhor...

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de vaidades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador...





O meu impossível


Minh'alma ardente é uma fogueira acesa,
É um brasido enorme a crepitar!
Ânsia de procurar sem encontrar
A chama onde queimar uma incerteza!

Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa
É nada ser perfeito. É deslumbrar
A noite tormentosa até cegar,
E tudo ser em vão! Deus, que tristeza!...

Aos meus irmãos na dor já disse tudo
E não me compreenderam!... Vão e mudo
Foi tudo o que entendi e o que pressinto...

Mas se eu pudesse a mágoa que em mim chora
Contar, não a chorava como agora,
Irmãos, não a sentia como a sinto!...





Eu


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou
Alguém que veio ao mundo para me ver
E que nunca na vida me encontrou!





Eu não sou de Ninguém


Eu não sou de ninguém!... Quem me quiser
Há-de ser luz do Sol em tardes quentes;
Nos olhos de água clara há-de trazer
As fúlgidas pupilas dos videntes!

Há-de ser seiva no botão repleto,
Voz no murmúrio do pequeno insecto,
Vento que enfurna as velas sobre os mastros!...

Há-de ser Outro e Outro num momento!
Força viva, brutal, em movimento,
Astro arrastando catadupas de astros!





Inconstância


Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer...
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando...

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também... nem eu sei quando...




A minha dor


(A você)

A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal...
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias...

A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...




Lágrimas ocultas


Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era q'rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!




Os versos que te fiz


Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder ...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer !

Mas, meu Amor, eu não t’os digo ainda ...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz !

Amo-te tanto ! E nunca te beijei ...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!





Para quê?!


Tudo é vaidade neste mundo vão...
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!...

Beijos de amor! P'ra quê?!... Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!...




Amar!


Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...




Nostalgia


Nesse País de lenda, que me encanta,
Ficaram meus brocados, que despi,
E as jóias que p’las aias reparti
Como outras rosas de Rainha Santa!

Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta!
Foi por lá que as semeei e que as perdi...
Mostrem-se esse País onde eu nasci!
Mostrem-me o Reino de que eu sou Infanta!

Ó meu País de sonho e de ansiedade,
Não sei se esta quimera que me assombra,
É feita de mentira ou de verdade!

Quero voltar! Não sei por onde vim...
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!





A Minha Piedade

A Bourbon e Menêses


Tenho pena de tudo quanto lida
Neste mundo, de tudo quanto sente,
Daquele a quem mentiram, de quem mente,
Dos que andam pés descalços pela vida,

Da rocha altiva, sobre o monte erguida,
Olhando os céus ignotos frente a frente,
Dos que não são iguais à outra gente,
E dos que se ensangüentam na subida!

Tenho pena de mim... pena de ti...
De não beijar o riso duma estrela...
Pena dessa má hora em que nasci...

De não ter asas para ir ver o céu...
De não ser Esta... a Outra... e mais Aquela...
De ter vivido e não ter sido Eu...






Amor que morre


O nosso amor morreu…Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria…
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre…e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia…

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer
E são precisos sonhos pra partir.

E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
De outro amor impossível que há de vir!




Alma perdida


Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente…
Talvez sejas a alma, a alma doente
D’alguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste… e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh’alma
Que chorasse perdida em tua voz!…





Florbela é, em toda sua extensão, a expressão da condição humana.Para mim, ela é incomparável.


(Mari N.)
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