A marcha das vadias de Fortaleza o desafio da mulher Aborto Livre Reflexão política no Brasil
1 2 3 4

8 de março: por que ser Feminista?




Todos os anos, é comum, no Dia Internacional da Mulher, recebermos rosas e parabéns.Vejam bem: rosas.As coisas já começam mal.Nem mesmo é difícil imaginar porque as recebemos.Não tem a ver com a rosa em si(eu, por exemplo, adoro flores.Mas é gosto pessoal).Assim como a língua que usamos, os atos são simbólicos, são ideológicos, e fazem a manutenção, no tecido social, daquela velha idéia de delicadeza, que está atrelada à mulher até hoje.

Mulher boa é a mulher delicada, daquelas que apresentam fragilidade e passividade, pronta para ser subalternizada. Enquanto isso, as propagandas que vemos, na TV, também fazem apologia ao mito do eterno feminino.

Estão lá passando a mensagem: para ser uma mulher de verdade, você deve seguir a cartilha comportamental, onde só pode ser “vagabunda”(a mulher que gosta de sexo, que não se prende a certas amarras “morais”.São vistas como objetos sexuais; mulheres para “comer”) ou “santa”(nesse caso, são as mulheres escolhidas para o casamento, que não podem, nem devem, segundo os machistas, gostar de sexo.O papel delas é o de reprodutoras, ou seja, vaginas/úteros ambulantes); tem que ser uma consumidora compulsiva de cosméticos( se não usar cosméticos, não é feminina) e estar sempre “com o corpo ideal”, tudo para manter-se “bela”e agradar o macho alfa(se ele não ficar satisfeito, o “pobrezinho" vai procurar outra na rua.E você será sempre culpabilizada por isso); tem que aceitar, com resignação, sua posição no mundo: a vassalagem.


E por que é assim?Porque lógicas só existem quando favorecem, quando dão lucro, a um grupo dominante.Não precisamos refletir muito a respeito.O grande beneficiado é o patriarcado.


O Dia Internacional da Mulher, infelizmente, ganhou ares comerciais.Para a maioria, deixou de ser um dia de reflexão e luta pela transformação do status atual.Dão-nos parabéns, mas pouco fazem para mudar a realidade.Uma realidade dura, massacrante, humilhante.Uma realidade de exploração à mulher.Então, essa data deve estimular a visibilidade feminina.Deve marcar nossa luta pelo fim da repressão.

Invariavelmente, todas as mulheres sofreram, ou sofrem, algum tipo de violência.Há diferentes formas de violação: agressões físicas, psicológicas e verbais.Muitas vezes, as psicológicas não são percebidas.E não percebemos porque o condicionamento é feito de uma maneira silenciosa, próprio para que não atentemos a mácula a nossa liberdade.

Somos tolhidas desde a infância.Não somos educadas para sermos o que quisermos ser.Essa liberdade é destinada apenas aos homens.Somos educadas para sermos propriedades. E somos vistas, diariamente, como tais.Um dia, somos dos nossos pais.Outro dia, em um futuro, já acordando que vamos casar, afinal, mulher nasceu com essa função, seremos dos nossos maridos(note que, para os machistas, toda mulher deve gostar de homem.A vida dela só faz sentido se tiver um homem.As lésbicas, para eles, são só objetos de escárnio ou objetos de fantasias sexuais).Nunca somos só nossas.Nunca nosso corpo é nosso.Nunca nossas idéias são nossas.Nunca nossos sonhos são nossos.

Nunca nossas lutas são nossas.Somos sempre de alguém.Somos sempre passíveis de intervenção externa.Porque até o que pensamos que é nosso acaba sendo reposicionado a uma lógica de zona de livre mediação.Todos decidem, menos nós, as mulheres.

E, quando crianças, já bem vemos o caminho da sacralização feminina.Vemos isso na educação sexista.Vemos isso na moral distorcida, de cerne obscura, de lema opressor.E somos varridas por uma gama de paradigmas comportamentais.A casta de humanidade nem mesmo é atribuída à mulher.Seres humanos são os homens.A língua está aí para provar essa idéia.E como disse, a língua é ideológica.As mulheres são estimuladas, desde jovens, a servir um macho dominante.Não são livres para escolher.São condicionadas a agir de acordo com o que o patriarcado propõe.São erotizadas desde cedo.Contudo, é um processo de erotização unilateral, para suprir as necessidades do patriarcado.A mulher não é estimulada a desenvolver sua sexualidade. E se ela fugir do padrão, é esmagada pela sociedade, que lhe imputa um condicionamento moral.



(pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo sobre as Mulheres brasileiras nos espaços públicos e privados: http://www.fpa.org.br/sites/default/files/pesquisaintegra.pdf)


Essa hierarquia está tão enraizada, na cultura, que temos a institucionalização do machismo.Às mulheres, foi reservada a exploração, coação, segmentação e aniquilação.A sociedade, em geral, prega o ódio à mulher.Só o fato de “nascer mulher”(para eles, o sexo biológico é suficiente para definir seu papel na sociedade) parece um atentado ao bem-estar social.A figura feminina foi bastante “demonizada”.E essa lógica demoníaca é endossada pela maioria das religiões cristãs.Entretanto, os ateus(atéias) e agnósticos(agnósticas) não estão livres de conceitos limítrofes machistas.Há misoginia entre eles , e elas, também, mesmo que não sejam encabeçados(as) por um livro que cultua a imagem da mulher como a culpada pelo pecado original.Incrível que ainda somos todas consideradas Evas tentando os pobres Adãos.Ou seja, de toda forma, a mulher nega sua autonomia para não sofrer o crivo da opressão, e não perder a “essência feminina”.

É impressionante o mecanismo de controle usado pelos machistas.É uma ferramenta vil, baseada no medo da humilhação e condenação pública.Há uma pressão tão forte, tão cerceadora, que faz uma mulher virar-se contra outra.Os valores reproduzidos são uma forma eficaz de dominação.Mulher independente, seja financeiramente, emocionalmente, psicologicamente, prejudica a lógica da posse.Tudo que eles não querem é a desconstrução. Para combater essa tentativa de desarticulação dos papéis de gênero, eles inseminam, nos lares, a misoginia.E esses valores humilham.Esses valores ferem.Esses valores matam.


E o pior é ouvir, nos dias de hoje, que não existe machismo, ou que a vida da mulher está muito melhor.Está mesmo melhor?Não existe mesmo machismo?
Acho válido fazer uma pequena reflexão.


1)As mulheres podem exercer sua liberdade, diariamente, sem o risco de serem vítimas de agressão sexual, independente da cor, etnia,idade, credo, orientação sexual?


2)As mulheres podem sair de casa, independente da hora, sem correrem o risco de sofrer abuso verbal(o que relativizam chamando de cantadas), ou algum outro tipo de coação?

3)As mulheres já deixaram de carregar o fardo da dupla jornada de trabalho?

4)Todas as mulheres têm salários equivalentes aos dos homens quando ocupam a mesma função?

5)As mulheres podem viver plenamente sua sexualidade sem sofrer o abuso proposto pelo condicionamento moral?

6)As mulheres já são encaradas como sujeitos ativos no sexo?Ou elas ainda são enxergadas, muitas vezes, tão somente como receptáculos de sêmen?

7)As mulheres deixaram o paradigma de objeto sexual ou símbolo maternal?

8)As mulheres não são mais encaradas como propriedades dos homens?Se não são, por que ainda há crimes “passionais” ( para mim, são crimes misóginos)?

9)As mulheres já podem decidir a respeito do seu corpo?Já podem abortar?O Estado parou de legislar a esse respeito?Os parlamentares (em maioria homens) deixaram de deliberar sobre a liberdade individual da mulher no tocante à gravidez?

10)As mulheres são livres para dissentir quando o assunto é “feminilidade”?Elas podem, simplesmente, não ir pelo viés do que a sociedade estabelece como feminino sem sofrer alguma retaliação?


Não precisamos sentar no divã para responder, precisamos?Todas as respostas são não.E são não porque nós não somos vistas como seres autônomos, como seres dignos de respeito, como seres humanos.

"Estupra, mas não mata" -Paulo Maluf

"O estupro é um acidente horrendo" - Severino Cavalcanti

"Comparando, em seu conjunto, o homem e a mulher, pode-se dizer: a mulher não possuiria o talento de se adornar se não soubesse, por instinto, que ela desempenha o papel secundário." – Nietzsche

“A lei Maria da Penha é um conjunto de regras diabólicas. Se essa lei vingar, a família estará em perigo. Ora, a desgraça humana começou no Éden: por causa da mulher. As armadilhas dessa lei absurda tornam o homem tolo, mole. O mundo é masculino e assim deve permanecer. No caso de impasse entre um casal, a posição do homem deve prevalecer até decisão da Justiça, já que o inverso não será do agrado da esposa.” – Juiz Edílson Rumbelsperger Rodrigues.Ele disse exatamente tudo isso em sentença, em 2007, ao julgar homens acusados de agredir e ameaçar suas mulheres.

“A defesa alegou que a vítima não era virgem e estava bêbada, junto com o réu, de modo a contribuir com o desfecho fatal.” – advogado de defesa em favor do réu acusado de estupro.

“Fragilidade, o teu nome é mulher!” -William Shakespeare

“A prostituta só enlouquece excepcionalmente. A mulher honesta, sim, é que, devorada pelos próprios escrúpulos, está sempre no limite, na implacável fronteira.” -Nelson Rodrigues

“A mulher não é um gênio, é um elemento decorativo. Não tem nada para dizer, mas di-lo tão lindamente.” -Oscar Wilde



E o mundo não é em nada machista, não é?
E somos iguais aos homens em todas as esferas da sociedade, não é?



Mas essa representação de desigualdade e dominação não acaba por aí.Aqui alguns dados estatísticos:


-Pesquisa feita pela Fundação Perseu Abramo, em parceria com o Sesc, projeta uma chocante estatística: a cada dois minutos, cinco mulheres são agredidas violentamente no Brasil.E já foi pior: há 10 anos, eram oito as mulheres espancadas no mesmo intervalo.


-Pesquisadores projetam que 7,2 milhões de brasileiras, com mais de 15 anos, já sofreram agressões. Quase 50% dos homens afirmam ter um amigo ou conhecido que bate na mulher

-Uma, entre quatro mulheres, é vítima de Violência Doméstica

-Em dez anos, dez mulheres foram assassinadas por dia no Brasil. Entre 1997 e 2007, 41.532 mulheres morreram vítimas de homicídio

-O estudo da OMS destaca que 37% das mulheres que vivem na Zona Rural sofrem violência física e sexual de seus parceiros, enquanto que na cidade, 29% são vítimas.Das mulheres que vivem na Zona Rural do País, 5% são agredidas por não cumprirem as tarefas domésticas, 10% por desobedecerem ao marido, 30% por infidelidade e 65% porque seus parceiros são agressivos e controladores.Já nas cidades brasileiras, 80% das mulheres apanham ou são violentadas porque os maridos têm comportamento violento, 10% por infidelidade e cerca de 1% por desobediência ou por não fazerem os trabalhos domésticos

-Em países da União Européia, entre 20 e 25% das mulheres sofrem abuso dos parceiros

-Nos Estados Unidos, 25% das mulheres sofrem abuso, apesar de pouquíssimos casos serem levados à polícia

-Uma em cada quatro mulheres que deram à luz em hospitais públicos ou privados relatou algum tipo de agressão no parto, perpetrada por profissionais da saúde

-70% das mulheres assassinadas foram vítimas de seus próprios maridos

-De acordo com os dados do MJ/SENASP/DECASP/Coordenação de Estatísticas e Acompanhamento das Polícias, foram registrados 15.122 estupros em todas as Delegacias do Brasil, em 1999, correspondendo a um índice de 9,22, referente ao indicador Taxa de Mulheres Vítimas de Violência Sexual.

-No Brasil, 31% das gestações terminam em abortos

-A Organização Mundial de Saúde estima que, no Brasil, cerca de um milhão de abortos clandestinos acontecem por ano, fazendo com que 150 mil mulheres morram ou fiquem com seqüelas devido às condições precárias a que se submetem

-Na África do Sul, uma em cada três mulheres já foi estuprada

-As mulheres são donas de 51,7% do eleitorado, mas só há 9% delas ocupando cargos parlamentares


Não é óbvio o motivo de ser Feminista?


Embora, ao longo de alguns anos, a palavra Feminismo tenha sido estigmatizada, as mulheres precisam se unir e continuar lutando pela transformação social.Ser Feminista é motivo de orgulho.O estigma atribuído ao Feminismo tem a ver com a tentativa de descaracterização da luta da mulher pela mulher.Precisamos romper essas amarras.O Feminismo não é o contrário do machismo.Afirmar isso é de uma ignorância ou má fé sem tamanho.O machismo é uma forma de comportamento onde há dominação, subjugação, baseado em normas de gênero, em que a mulher sofre condicionamento opressor.É através do machismo que temos a incidência dos mais diversos tipos de violência.E um de seus produtos é a homofobia.

O Feminismo é um movimento baseado no discurso de equidade social, política, jurídica e econômica entre homens e mulheres.O Feminismo não prega superioridade feminina e a criação de sociedades matriarcais.O Feminismo não tem como objetivo o ódio indiscriminado a homens.O Feminismo não procura reproduzir papéis de gênero.O Feminismo não deseja estabelecer um padrão comportamental para mulheres.O Feminismo não propõe a dominação dos homens.O Feminismo nada tem a ver com tirania.

O Feminismo é a libertação de todas as ideologias condicionantes de gênero.O Feminismo é a libertação das amarras subjetivas propostas pelo sistema autocrático do patriarcado.O Feminismo é a proposição que dá escolhas tanto para mulheres quanto para homens.

Nele, encontra-se uma pluralidade de caminhos que não partem de limitações de conduta.O Feminismo é a luta da mulher sim.O Feminismo é a conscientização da mulher a respeito do seu papel no mundo.É um movimento feito por mulheres, pensado por mulheres( já que nós fomos pensadas, sentidas, julgadas por homens.Precisamos da nossa identidade cultural), vivido por mulheres, na luta por mulheres.É um movimento pelo fim da opressão, seja ela em que âmbito for.A mulher como elemento de desconstrução dos conceitos.A mulher lutando pela mulher, fazendo-a ser reconhecida como uma igual, como um ser humano.Enquanto existir dominação, opressão da mulher, vai existir Feminismo.

E, com todo orgulho do mundo, digo: eu sou Feminista.O corpo é somente meu.As minhas idéias são válidas.Eu não sou propriedade.Eu não sou um objeto de satisfação do patriarcado.Eu sou um ser autônomo e exijo igualdade.

Mulheres, lutem!Destruam!Reconstruam!Nós podemos!




Agora, quando alguém te oferecer uma flor, você diz: não quero que me ofereça flor.Quero que me ofereça a igualdade.





(Mari N.)

Ler Mais

Che Guevara, o símbolo irreal






Hoje, é normal vermos pessoas usando camisas com uma enorme estampa de Che Guevara.Eu mesma já quis uma.Para a maioria, Guevara é o símbolo da ideologia revolucionária.É o supra-sumo de uma juventude transgressora.Quase como um receptáculo de idéias reformistas.Talvez, na imagem dele, as pessoas depositem a esperança da transformação social, política e econômica do mundo.

Justamente sua quase ortodoxia
política, que o fez deixar a Medicina e dedicar-se inteiramente à transformação das bases sociais, promoveu a fama de “o maior socialista do século XX”.

Há romantismo em sua história.Inegável.
Mas um romantismo voltado para a luta.Guevara é como um mártir, um Jesus pós-moderno, que morreu pelos povos subjugados.

Negou-se a compactuar com o sistema capitalista.Moveu-se ante um cenário de opressão.Deixou-se penetrar por um instinto quase lúbrico da mutabilidade possível.

Mas quem ele foi realmente?De que Che estamos falando?E seria ele o símbolo necessário à luta contemporânea?






Ernesto Guevara de la Serna nasceu na Argentina, cidade de Rosária, em 1928.A família, embora aristocrata, tinha uma cerne inseminada pelas idéias socialistas.

Desde cedo, Ernesto voltou-se para a leitura, sobretudo das obras de Marx, Engels e Lenin.Identificou-se.Comungava com os ideais propostos. Construía-se, gradativamente, a figura de perturbador, infrator, da ordem segregativa Imperialista.



Em 1946, Guevara iniciou a faculdade de Medicina e, paralela a ela, fazia trabalho voluntário em um centro de pesquisas sexuais mantido pelo partido comunista.E isso é muito paradoxal quando fazemos um levante sobre toda a sua trajetória de vida.Ele é o ícone da luta contra a injustiça.Mas foi, em contrapartida, um grande fomentador de injustiças, sobretudo com uma parcela da população(homossexuais), ao ascender ao poder, em Cuba, juntamente com Fidel Castro.Mas voltando ao seu resgate histórico, em 1951, o jovem Ernesto fez uma viagem, pelaAmérica Latina(Venezuela, Peru, Colômbia, Chile e sul da Argentina), com o amigo Alberto Granado. Ambos conheceram a situação social, econômica e política dos povos americanos.

A constatação de uma realidade mordaz, que não garantia a dignidade às populações, funcionou como combustível para Guevara concluir sua faculdade de Medicina, o que aconteceu em 1953, e dedicar-se à política.No mesmo ano, realizou a segunda viagem pela América Latina.Dessa vez, visitou Bolívia, Panamá, Guatemala, El Salvador, Equador, Colômbia, Peru e Costa Rica.

Maturou a necessidade de profundas reformulações para acabar com as desigualdades arraigadas.Foi então que o processo de transformação individual ganhou ares de transformação coletiva por meio do ideal de revolução.

E assim chegou ao México, em 1954, onde conheceu um grupo de revolucionários cubanos que seguiam Fidel Castro, o Movimento 26 de Julho.Ernesto acompanhou os guerrilheiros durante a invasão a Cuba.Posteriormente, ao familiarizar-se com a luta, participar de confrontos diretos, largou a ocupação de médico e tornou-se líder ao assumir o exército revolucionário.

Vale lembrar que, desde 1952, Cuba vivia sob a ditadura de Fulgêncio Batista.O país possuía um elo de dependência econômica com os
Estados Unidos, além de ser fortemente influenciado na política nacional.

Os norte-americanos apoiavam o governo de Fulgêncio, assim como apoiavam diversas ditaduras no mundo e financiaram algumas na América.

Inclusive, no Brasil, na década de 60, prepararam uma armada para garantir que o presidente Jango fosse deposto; caso isso não acontecesse, a tropa invadiria o país e iniciaria uma guerra civil(Plano “Brother Sun”) para garantir seus intentos, que era estabelecer a ditadura.Mas voltando a Cuba, não, não fica difícil perceber que a repressão era forte.A situação do povo não era em nada favorável, pois grande parte da população vivia em situação de completa miséria.Os índices de desemprego, concentração fundiária e analfabetismo eram altos.Os salários, dos trabalhadores, baixos.Ou seja, as condições sociais eram terríveis.

E em 1959, as tropas de Fidel entraram em Havana e Batista foi derrubado.Iniciava-se um novo regime.
O povo cubano acreditava que este regime seria democrático, representativo.Mas não foi.As coisas tenderam ao radicalismo.

E vale fazer uma analogia clara com o mesmo radicalismo que ocorreu no governo de Robespierre durante a Revolução Francesa.Obviamente, na França, tinha-se uma classe burguesa lutando pela igualdade, liberdade e fraternidade de homens brancos e com poder aquisitivo.

Embora haja diferenças na ideologia, fica claro o apego ao poder como um elemento de coerção, de um jeito que, inclusive, os considerados inimigos da nova proposição governamental, tanto no governo Robespierre quanto no de Fidel, foram mortos.Em Cuba, era o famoso paredão de fuzilamento.E o comando tornou-se, cada vez mais, autoritário.

Com o sucesso da Revolução Cubana, Che Guevara virou um importante nome no governo. Tornou-se, posteriormente, ministro da indústria e presidente do Banco Nacional.
Suas ocupações não se restringiam ao âmbito administrativo.Foi incumbido de outras funções, já na esfera militar e diplomática.

Então, todo esse levante já é suficiente para mostrar o caráter de vanguardista na luta pelo fim das injustiças sociais, não é?Eu só tenho uma resposta: não!Muitos só conhecem essa versão de herói.Muitos acreditam nesse espírito superno de Guevara.Eu mesma pensava assim até pouco tempo.Para mim, Che era a representação de um processo de conscientização, e a materialização de que até a mais tola das utopias pode ser praticável.

Mas este homem, definitivamente, não é a representação da luta em prol dos grupos marginalizados.Não se pode ter a real igualdade permeando outra cisão social e vitimando um grupamento, não é?E foi exatamente isso que aconteceu.

O verdadeiro Che não é só o pintado com um certo positivismo histórico.

Ernesto foi, também, um marco de opressão em Cuba.E não falo da implantação do Socialismo no país.Refiro-me a sua paradoxal conduta ao ascender ao poder no apóio a Fidel.

O Che pintado, nas camisas, é o homem que saiu da sua condição de privilegiado e resolveu combater as desigualdades.

Mas o verdadeiro Che foi aquele que assistiu ao discurso de Fidel Castro, em 1959, quando este assumiu o poder, e compactuou com a disseminação de idéias homofóbicas ao ouvi-lo dizer: “um homossexual não pode ser um revolucionário”.

O verdadeiro Che Guevara é o que, em 1965, unido a Fidel, criou as Unidades Militares de Ajuda à Produção.Sabem o que é isso?A ONG homossexual mais antiga da América Latina, o Grupo Gay da Bahia, desenvolveu um trabalho a esse respeito, inclusive com a participação do antropólogo Luiz Mott, que define essas Unidades Militares como:

“acampamentos de trabalho agrícola em regime militar, com cercas de 4 metros de arame farpado, onde os homossexuais e
outros “marginais” realizavam trabalho forçado nos canaviais, com até 16 horas de trabalho forçado, em condições desumanas muito semelhantes aos campos de concentração nazistas”

(mais informações sobre a pesquisa do GGB:www.ggb.org.br/cuba_livre.html)



Então, é esse o homem símbolo da batalha contra a opressão?É esse o paladino da Justiça?É esse o brasão que os jovens querem ostentar como ouro de tolo?


Querem levar, no peito, a imagem do homem que, ao entrar na biblioteca da Embaixada Cubana, e ver a obra de Virgilio Piñera, escritor homossexual, jogou o livro na parede, dizendo: “como vocês têm na nossa embaixada o livro de um “viado”!”


Além desses comportamentos inaceitáveis para quem dizia lutar por um regime igualitário, teve-se, também,a perseguição de inúmeros homossexuais durante o governo de Fidel.Alguns foram mortos.Outros foram exilados.Estima-se que cerca de 10 mil homossexuais foram deportados de Cuba.Inclusive, criou-se prisões para vítimas da AIDS, onde a maioria era homossexual.E, a partir do momento em que se fere a integridade dos indivíduos, fere sua liberdade individual, a fim de fazer a manutenção do poder, tem-se mais um regime autocrático.





Definitivamente, Che Guevara não deveria ser o ícone de uma juventude que deseja transformar o mundo, uma juventude sonhadora, que rompeu os grilhões da mediocridade que a nossa sociedade nos faz reproduzir.

Não são mais sujeitos passíveis, que apenas reportam, ao tecido social, uma herança de valores distorcidos.Para essa juventude, que prima pela ética, que rompe barreiras, que desenvolveu o senso crítico, não há margem para figuras dúbias, figuras que valorizaram, ou valorizam, a opressão, a exploração e o sofrimento de outros seres humanos.

Não faz sentido lutar por um mundo melhor e ter como bandeira um homem que fechou os olhos para a diferença e legitimou a perseguição.Não, e digo com todo meu coração, Ernesto Guevara não merece essa comoção em torno de seu nome.

Espero que os jovens abram os olhos e parem de usar, sem nem mesmo saber que símbolo levam, objetos que reportem a um vilão coberto por uma pele de herói falsamente moldada.Para mim, Guevara deixou de ser a essência da transformação social.

E, para quem acha que tudo que ele fez foi em nome de um ideal, lembre-se que não há Justiça verdadeira, regime igualitário, reconhecimento das diferenças, melhoria social, quando se derrama o sangue de inocentes por pura ignorância e tirania.Se, ainda assim, acha válido ter Guevara como herói, só posso pedir que assista ao filme de Reinaldo Arenas, Morango e Chocolate, porque, quem sabe, sua cabeça abre um pouco.

Precisamos, sim, de um novo ícone de luta.Mas a luta que não construa outro sistema estratificado socialmente.Precisamos nos render aos sonhos e começarmos a transformar as pequenas coisas.E isso não vem com nenhuma idealização de figuras históricas.Isso vem com a materialização dos nossos ideais.Juventude, rompa com a linearidade!Juventude, abandone os velhos conceitos!Juventude, deixe de lado falsos heróis!Aja!O mundo não precisa se dobrar aos nossos pés.O mundo é o espaço para a construção de uma realidade mais humana.



(Mari N.)
Ler Mais

Revoltas no mundo árabe






A história do Oriente nos remete a um passado de crises. Situado em uma região conflituosa, desde a antiguidade, sua ocupação gerou problemáticas, principalmente de caráter religioso, por ser um território sagrado, tanto para cristãos quanto para islâmicos, e, ainda, judaicos.

O petróleo sempre foi visado pelos países ocidentais. A situação veio a piorar a partir da tomada de boa parte do território palestino para criação do estado de Israel, em benefício do povo judeu, com ampla participação internacional, especialmente dos Estados Unidos. Desde então, sucessivos confrontos entre israelenses, apoiados pelos estadunidenses, e os outros países do mundo árabe foram se formando, aguçando a problemática na região.


Golpes foram exaurindo governos locais para implantação de ditadores que satisfizessem os interesses ocidentais, uma espécie de imperialismo claramente interessada no petróleo.

Com o tempo, isso estimulou a mobilização dos povos bastante insatisfeitos com as intervenções colonizadoras, gerando ódio e repulsão àqueles que trouxeram a fome, o desemprego, os baixos salários, a falta de expressão, a corrupção, a violenta repressão, a falta de moradia, enfim, trouxeram todo um alicerce para subjugar as populações.

Falando sobre um dos berços culturais do mundo, o Egito localiza-se no Nordeste da África.É o país mais povoado do mundo árabe, com aproximadamente 80 milhões de pessoas.Em contrapartida, é um dos mais pobres, tendo 42% da população vivendo com menos de dois dólares por dia, abaixo da linha da pobreza.Ou seja, mesmo com o crescimento populacional a partir de 1975, os recursos não acompanharam esse crescimento.

O Egito possui uma importância estratégica e econômica.Estratégica por estar localizado entre a Ásia e a África, e por ser vizinho de Israel.Econômica pela importância do canal de Suez, necessário a 7% do transporte marítimo mundial, que é um dos grandes pilares da economia egípcia, também atrelado à questão estratégica por ligar o Ocidente ao Oriente. Além, é claro, deste país ter seu papel como um exportador de petróleo, ainda que não prioritariamente.A história egípcia é marcada por regimes autoritários, baseados na dominação de um grupo sobre o povo.


Em 1952, houve uma profunda alteração nas políticas governamentais devido a um golpe aparelhado por uma organização secreta autodenominada de
Oficiais Livres.

Os egípcios saíram às ruas, formando motins, em uma ação que exigia o fim da dominação britânica, que já durava 70 anos.No ano seguinte, houve a instauração da república e o fim da monarquia, esta marcada pelo último rei egípcio, Faruk I.


O país encontrava-se em latente situação de desigualdade social, sendo vítima da corrupção administrativa e com o povo padecendo na pobreza.A Revolução Nasserista levou a uma reformulação nacional.Houve uma desapropriação das terras fundiárias para serem distribuídas entre os felás e a saída definitiva das tropas britânicas da Zona do Canal de Suez.




E, em 1956, Gamal Abdel Nasser, que encabeçava o movimento de emancipação, foi eleito presidente.Nesse mesmo ano, houve a nacionalização do Canal de Suez, mas não sem antes o Egito sofrer um ataque conjunto da França, Reino Unido e Israel.As questões de conflito não cessaram por aí.


Em 1967, ocorreu a Guerra dos Seis Dias, um ataque massivo das tropas israelenses apoiados pelos norte americanos.O Egito perdeu a Faixa de Gaza e a península do Sinai.

Posteriormente, em 1973, aconteceu a Guerra do Yom Kippur.O Yom Kippur é o dia do perdão no judaísmo.

Os impasses só tiveram fim em 1978, com a assinatura de Camp David.
O Egito recebeu de volta o território do Sinai e teve a possibilidade do apóio financeiro e militar por parte dos Estados Unidos.Nota-se, na política egípcia, uma forte presença do segmento militar.Este, assumindo, atualmente, a posição de mediador até as eleições presidenciais egípcias, em setembro de 2011.Há uma correlação entre dois regimes baseados na dominação, com duração de mesmo período de tempo, 30 anos, sendo um na monarquia(Faruk I) e o outro na república(Mubarak), mas com viés ditatorial.


No dia 11 de fevereiro de 2011, o presidente, Hosni Mubarak, que já governava há 30 anos, renunciou.Por meio do levante popular, este organizado através das redes sociais(MSN, Facebook, Twitter, Orkut), também inspirado na rebelião popular ocorrida na Tunísia, que depôs o então presidente Ben Ali, o Egito entrou em um período de efervescência.

No dia 25 de janeiro, as pessoas, por intermédio da internet, protestaram pedindo a saída do presidente Mubarak.Milhares ocuparam a praça Tahrir, que é a maior praça pública do centro do Cairo.Mas aconteceu protesto também em Alexandria, Suez e Ismaília.Três dias depois, o governo, já sabendo a forma de vinculação das informações, cortou o acesso à rede e ao resto do serviço de telefonia celular; inclusive decretou toque de recolher.Mesmo ante um cenário de pura repressão, o povo continuou indo para as ruas.Já havia comoção em massa.

Inclusive, no dia 30 de janeiro, o Nobel da paz, Mohamed ElBaradei, juntou-se à multidão.Greves foram convocadas.Não havia mais como parar a reação do povo.Estavam conscientes.Sabiam do seu papel.Sabiam da necessidade de mudança.Eles expandiram a visão e se viram como atores e não mais espectadores.A realidade política era passível de mudança desde que eles fizessem esse processo de transformação, desde que eles reformulassem o cenário político nacional.E, por meio da necessidade de transformações sociais, políticas e econômicas, o povo se viu como decisivo e como autônomo, combatendo um regime ditatorial, repressor, dominador.

O cenário do Egito não poderia ser mais calamitoso durante o governo
Mubarak.A nação estava marcada pelos altos índices de desemprego, níveis elevados de corrupção(economia abalada), violência policial, falta de moradia, alta inflação, falta de liberdade de expressão, más condições de vida, necessidade de um aumento salarial.


E, após 18 dias de pressão popular, o presidente renunciou, confirmando que a força do povo pode sim alterar as estruturas da sociedade.O efeito Tunísia ainda ganha força nos países árabes, inspirando-lhes a lutar pela melhoria da nação, pela modificação do governo, onde o povo luta pelo povo.

Agora, vemos essa consciência política inflamando a Jordânia, Iêmen, Argélia, Mauritânia, Sudão e Omã.Só que uma questão, um tanto quanto paradoxal, é o povo egípcio derrubar um ex-comandante da Força Aérea Egípcia(Mubarak), que lutou contra Israel na guerra do Yom Kippur, e era o segundo principal aliado norte-americano no mundo árabe(o primeiro é Israel), e deixar o país sendo governado pelo Conselho Supremo das Forças Armadas.

Os militares possuem interesses econômicos e um apego forte ao poder, que eles não vão abrir mão.Os dois antecessores do Mubarak, assim como o próprio, possuíam apóio militar.Então, tendo em vista a necessidade profun
da de reformulação social e política que o povo quer em oposição ao artifício do continuísmo que os militares propõem, fica difícil a transição para um regime democrático e igualitário.

A disputa para a sucessão de poder, em setembro de 2011, traz quatro nomes fortes para a presidência: marechal Mohamed Tantawi, que é um representante voltado para a continuação do antigo regime; Amr Moussa, ex-ministro de Mubarak e atual secretário-geral da Liga dos Países Árabes, que é enxergado como uma possibilidade de melhoria do antigo regime e um nome forte para vencer as eleições; o líder do partido liberal Al-Ghad, Ayman Nour, figurando na oposição junto com o diplomata Mohamed ElBaradei.

E, acoplando-se a esse processo de transformação interna, tem-se a Irmandade Muçulmana que, embora não apresente representante para concorrer à presidência, é favorita a várias cadeiras no parlamento, deste forma, ampliando sua influência.


Levando-se em consideração que a Irmandade Muçulmana deu origem ao pensamento fundamentalista islâmico, já que são baseados estritamente na sharia, a participação deles nas políticas governamentais é de extrema relevância.A partir destas constatações, entende-se o temor pelo qual o Ocidente vem sofrendo com o risco de o grupo islâmico venha a chegar ao poder, comprometendo os interesses das principais potências mundiais no Oriente Médio. Este temor remete ao que ocorreu no Irã nos anos 70, quando a Revolução Islâmica derrubou o xá Reza Pahlevi, ditadura apoiada pelo Ocidente, para implantação de outra ditadura, a Islâmica. A questão é que essa mudança política, no Egito, é gradativa, e criará, inevitavelmente, uma gama de novos conflitos sociais.


E, provando essa nova gama de conflitos, tem-se o mundo árabe, atual, em um cenário de conflitos políticos.A necessidade de transformação social levou, às ruas, um povo que estava sofrendo com regimes autocráticos e corruptos.Uma população marcada pela repressão e pela desigualdade, sendo este o fator principal que fomenta a pobreza.E justamente as más condições de vida foram um motor de sublevação para as pessoas já desgastadas com a tolha de liberdade, com a violência proposta por regimes ditatoriais, que não forneciam nenhum indicativo de melhora, seja do ponto de vista econômico ou social.Em uma tentativa de manobrar e controlar os ânimos exaltados dos manifestantes, os governos procuraram, e alguns ainda procuram, soluções apressadas e superficiais para cessar o levante do povo.Mas desta forma, não há uma transformação profunda na sociedade, mas sim a preservação dos papéis de poder.


A revolta
de Jasmim, na Tunísia, como já foi dito,
representou o estopim para a
organização de revoltas em outros países árabes.
Ela demonstrou a força do povo como um elemento de desarticulação e rearticulação.

As massas modificam, sim, a organização social, principalmente as relações de poder dentro desses países.Não se parte mais da idéia de unilateralidade.

O governo precisa, agora, de uma reformulação para atender às necessidades de vários segmentos sociais.Os levantes populares funcionam como um elo de coesão entre as pessoas, em uma luta conjunta pelo mesmo objetivo: a democracia acompanhada por melhores condições de vida.

A Tunísia gerou uma onda de soberania popular expansionista, que se irradiou pelo tecido social, gerou um processo de conscientização e a busca incessante pelo bem-estar do povo.
E, pela proximidade e pelo peso que as primeiras revoltas tiveram, elas inspiraram a população dos países próximos a lutarem por seus direitos.Basicamente, um efeito cascata.E, agora, tem-se Argélia, Jordânia, Iêmen, Bahrein, Iraque e Irã concentrando forças para uma mudança, ainda que gradativa, da política nacional.

A questão é que um grupo, com histórico arraigado ao poder, não vai abrir mão facilmente da sua influência sobre a região, gerando, inevitavelmente, mais manifestações, atentados, mortes e novos conflitos sociais.É difícil prever o futuro desses países. Muitos, com grupos extremistas, que visam instaurar a sharia, podem chegar ao poder, enquanto outros só fazem a manutenção, como é o caso do Irã.Assim como, em contraposição a essa opção, podem eleger um representante com discurso moderado.

Mas a autonomia do povo árabe, entrando em choque, lutando, não se quebrantando diante das tentativas frustradas de repressão do governo, e tudo sem intervenção internacional, mostra um novo lado do povo islâmico.Ajuda a desconstruir a idéia, muitas vezes, equivocada, de pessoas extremistas, sem consciência, que tem como ordem fundamental a destruição do Ocidente, como vende uma mídia parcial.

Os regimes teocráticos(Israel, Arábia Saudita e Irã) são os grandes perdedores com as revoltas populares.Eles passam a ter sua legitimidade questionada. Com essa conscientização em massa, forma-se uma unidade voltada para um regime democrático, onde o governo não use imperativos religiosos, seja integralista e não promova cisão social; seja um governo para todos os cidadãos.


E, com a concretização do Egito como liderança no mundo árabe, pode-se pensar em algumas possíveis conseqüências, como é o caso da questão israelense-palestino, e o fim tentativas de tomada de poder por parte dos aiatolás iranianos.O necessário é que a pressão continue, pois, assim, vai forçar a uma modificação política intensa, e não somente paliativos que disfarçam os verdadeiros interesses de grupos acostumados ao poder.Agora, quem sabe, acabe o estigma atribuído ao mundo árabe, e eles deixem de ser enxergados como inimigos, e passam a ser vistos como um povo que também deseja a ascensão política, social e econômica em um regime igualitário.


(Mari N. e Bia G.)
Ler Mais

Cinema: Deus e o Diabo na Terra do Sol






A ficção Deus e o Diabo na Terra do Sol é uma obra brasileira, dirigida por Glauber Rocha, o longa-metragem preto e branco tem duração de 125 minutos; foi lançado em 10 de julho de 1964 no Rio de Janeiro.

O filme utiliza-se de personagens e fatos históricos concretos (o cangaço e o mandonismo local dos coronéis no Nordeste, o beatismo ou misticismo de base milenarista, a literatura de Cordel, Lampião e Corisco, Euclides da Cunha e Guimarães Rosa, Antônio Conselheiro e Antônio Pernambucano (jagunço ou assassino de encomenda de Vitória da Conquista).





A trama está dividida em três partes: primeiro a demonstração da vida sofrida do povo do sertão, depois mostra as duas formas que esse povo encontra p
ara sobreviver, o catolicismo e o cangaço.

O vaqueiro Manuel, depois de uma briga com o fazendeiro Moraes, mata-o e volta para sua casa, lá chegando encontra sua mulher Rosa e sua mãe a qual logo em seguida é morta pelos jagunços do fazendeiro Moraes; então Manuel foge com sua mulher para o auto do Morro Santo (lugar sagrado onde se promete a salvação através de um catolicismo ritual e místico) e se une aos seguidores do beato Sebastião.
Após presenciar a morte de uma criança para um ritual, Rosa mata o beato.Então o matador Antônio das Mortes contratado pela Igreja Católica para assassinar o beato, extermina os seus seguidores.

Novamente em fuga, Manuel e Rosa se unem a Corisco, (companheiro de Lampião que sobreviveu ao massacre do bando); sempre em busca de uma sobrevivência no sertão, agora pelo caminho do cangaço. Antônio das Mortes continua sua perseguição e acaba por matar e degolar Corisco, segue uma nova fuga de Manuel e Rosa, agora em direção ao mar.



O mais interessante nesse filme é a demonstração clara do sofrimento das pessoas que vivem no sertão nordestino seguindo fielmente a realidade e se baseando em fatos históricos. Observa-se também a inexistência de apelações a marcas ou a venda de produtos como podemos observar em muitos filmes que estão em exibição atualmente.

Segundo Pierre Bourdieu a cultura está em perigo graças a globalização e aos meios de comunicação que estão cada vez mais tentando homogeneizar a cultura em vista da obtenção exorbitante do lucro, diz o sociólogo: “ Como não enxergar que a lógica do lucro, sobretudo a curto prazo, é a estrita negação da cultura, que supõe investimentos a fundos perdidos, fadados a retornos incertos e não raro póstumos?”

É um ótimo filme para quem procura desvencilhar da alienação cultural que estamos submetidos diariamente.




O diretor Glauber de Andrade Rocha (Vitória da Conquista, 14 de março de 1939 — Rio de Janeiro, 22 de agosto de 1981) foi um cineasta brasileiro e também ator e escritor. Entre suas obras de destaque podemos citar: Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro.









Dulcinea de Carvalho,21, estudante de Jornalismo, amante de filmes, literatura,música, arte em geral , história e uma escritora-amadora-compulsiva.
Leia mais textos dela em :
http://www.suspirosdecarvalho.blogspot.com/

Ler Mais

Os gatos

Este resumo não está disponível. Clique aqui para ver a postagem.
Ler Mais

Antropologia




Somente no final do século XVIII, iniciou-se a construção de um pensamento científico que tem o ser humano como objeto de estudo.Porém, sua legitimação só veio na segunda metade do século XIX.O objeto empírico adotado foi as sociedades “primitivas”.O ser humano deixou de ser o fomentador do conhecimento, das elaborações teóricas, e passou a ser o objeto passível de análises.
Não existe uma definição estrutural para a Antropologia.É uma área abrangente, que traz valores diversificados.De uma forma direta, pode-se dizer que Antropologia é o estudo do ser humano como ser biológico, cultural e social.Vale salientar que existem outros fatores além desses.Insere-se, também, nessa definição, o estudo comparado, que é baseado nas diferenças culturais.É, sobretudo, uma ciência que investiga as origens, o desenvolvimento, as semelhanças, as diferenças, as evoluções,as involuções, das sociedades humanas.


O antropólogo





Geralmente, o antropólogo tem, como papel fundamental, a investigação das diversas formas de desenvolvimento comportamental humano, com o objetivo de descrever, integralmente, os fenômenos sócio-culturais.Eles procuram perceber a realidade humana através da análise dos mecanismos de relacionamento e as formas de organização social.



Estudo do homem(é, eu me incomodo com o machismo linguístico.Fica parecendo que só homens são seres humanos.Inclua mulher aqui também, afinal, não somos andróides):

*Estudo do homem por inteiro:

- Antropologia Biológica: estuda as transformações das características biológicas ligadas ao ser humano ao longo do tempo e em um determinado espaço.
-Antropologia Pré-Histórica: estuda o ser humano através dos vestígios materiais.O objetivo principal é a reconstrução da produção cultural, social e artística das sociedades já desaparecidas.
-Antropologia Lingüística: estuda como o homem interpreta o seu saber, o seu universo, o seu meio social.Com base nisso, pode-se externar os valores que definem aquela sociedade.
-Antropologia Psicológica: compreensão da totalidade do ser humano através dos comportamentos conscientes e inconscientes.Trabalha com o processo de funcionamento da mente.
-Antropologia Social( focada nas instituições) e Cultural(manifestações comportamentais coletivas) - (Etnologia) : refere-se a tudo que constitui a sociedade, desde a produção econômica até a produção artística.Articulação desses aspectos dentro da sociedade.



Análises


O trabalho de campo antropológico tomando como base as idéias de Malinowski



Com o objetivo de organizar algumas regras metodológicas para uma pesquisa de campo antropológica que se diferenciasse do trabalho de autores antigos, ou seja, que esta pesquisa constituísse objetivos genuinamente científicos, Malinowski propõe que o etnólogo precisa conhecer os valores e critérios da etnografia moderna. É característica da etnografia o dever do pesquisador de percorrer a imensa distância entre o material bruto coletado na vida em campo através de suas próprias observações e a apresentação final dos resultados da pesquisa.

Entre os métodos sugeridos para a coleta do material etnográfico seria a questão da apresentação da pesquisa científica de maneira clara e absolutamente honesta. Assim sendo, o etnólogo deve ter o compromisso como profissional do ramo do conhecimento humano (compromisso este também com os seus leitores) de mostrar resultados baseados em verdades coletadas em campo e que revelem algo a respeito de experiências concretas, levando-o às suas conclusões.
O trabalho etnográfico final, portanto, não pode ser “inventada” nem conter mentiras ou noções distorcidas da realidade.

A partir da descrição abordada, concluo que esta questão foi importantíssima para a construção da metodologia antropológica do trabalho em campo na medida em que procurou uma nova alternativa de pesquisa moderna em detrimento das formas de abordagem da vida nativa dos autores antigos. Desse modo, Malinowski ajudou a danificar aquela noção ultrapassada do agente etnológico colocar-se como preconceituoso, de opiniões já sedimentadas, menosprezando o que o autor chama de tesouro científico: basicamente as peculiaridades mentais e culturais dos nativos.

Outra questão evidenciada no método de Malinowski seria a de que o pesquisador necessita asseverar boas condições de trabalho as quais, para o autor, seria resumidamente viver entre os nativos (observação participante).Para tanto, o etnólogo precisa seguir algumas condições: ele deve se afastar das influências de outros brancos e se desprender ao máximo de sua própria cultura ocidentalizada. Entretanto, isso só é possível acampando dentro das respectivas aldeias, mantendo apenas uma base a qual serve de refúgio branco nos momentos depressivos ou de doença e ainda em casos de exaustão da vida nativa.

De acordo com este conceito de boas condições de trabalho, a vida ativa na aldeia provoca um relacionamento natural com os habitantes da comunidade. Constituindo esta naturalidade na convivência, o antropólogo pode então conhecer e familiarizar-se com os costumes e crenças de modo muito melhor do que quando se relaciona esporadicamente com os nativos.

Ao demonstrar interesse pessoal por acontecimentos importantes na vida tribal, como uma festa ou fato peculiar, o etnógrafo consegue desvendar as regras e regularidades dos costumes nativos e, desse modo, pode produzir um esboço claro e minucioso da estrutura nativa.

Concluindo sob meu ponto de vista, este segundo método de investigação antropológica tem a sua relevância no que tange a forma de como o pesquisador busca o seu material etnográfico dentro das próprias aldeias e este fato se sobressai perante o método dos antigos, com uma importância especial, pois o etnógrafo tem a oportunidade de sentir as instituições presentes na aldeia e, assim, produzir um trabalho melhor elaborado.

Uma terceira abordagem a ser feita na metodologia de Malinowski seria a de conhecer o que o autor chama de os imponderáveis da vida real. Ele dá uma devida magnitude no tocante do levantamento exaustivo de dados bem detalhados e, a partir disto, dispor os resultados obtidos na forma de um quadro sinótico, apresentando o esboço da sociedade observada e utilizando como instrumento de estudos (método de documentação estatística por evidência concreta).

Contudo, tal levantamento de dados ainda não consegue perceber ou imaginar de fato a realidade da vida nativa, pois até mesmo os relatos de informantes podem não condizerem com a realidade propriamente dita. Na solução desse problema, o pesquisador através da observação pertinente dos costumes, cerimônias, transações, crenças etc., tal quais os nativos realmente vivem. Assim, o etnógrafo tem acesso aos fenômenos mais essenciais do íntimo da realidade nativa.

Diante dessa caracterização, posso compreender que os imponderáveis da vida real são complementos indispensáveis no trabalho de campo na medida em que somente o auxílio de questionários ou documentos estatísticos não consegue chegar de fato à plena realidade.




Analise do trabalho antropológico em Roberto Cardoso de Oliveira.



Na composição de sua metodologia no trabalho de campo antropológico, Roberto Cardoso de Oliveira prioriza três aspectos fundamentais para o pesquisador, abrangendo o caráter construtivo da percepção dos atos cognitivos, ou seja, dos atos que envolvem os sentidos do olhar, do ouvir e do escrever. Estes sentidos são tidos como etapas para a apreensão dos fenômenos sociais, tomando-as com o objetivo de questioná-las. Sendo assim, o etnógrafo exerce uma função de reflexão no exercício da pesquisa e da produção de conhecimentos. O autor mostra que tais etapas, embora pareçam triviais, a ponto de serem até banalizados e esquecidos no trabalho em campo, assumem um sentido particular, pois é com eles que se constrói o saber.

A primeira etapa, ou primeira experiência do etnólogo tem como característica a domesticação teórica de seu olhar. Tal domesticação ocorre a partir de um direcionamento do olhar em certo objeto e, desse modo, altera-o pelo próprio esquema conceitual da nossa forma de visualizar a realidade disciplinada academicamente, através de sua “bagagem” teórica.

O embasamento teórico que o pesquisador carrega entra nesse processo, pois sensibiliza o seu olhar e, assim, uma realidade ou característica cultural nativa não é mais vista com ingenuidade ou como uma mera curiosidade perante o exótico. Portanto, o olhar devidamente treinado tem a função de observar as características culturais essenciais à vida nativa. Também consegue enxergar processos de mudança cultural ou de aculturação.

Fundamentando-me nos aspectos apresentados pelo autor para descrever esta primeira percepção da comunidade, posso argumentar a respeito da magnitude do olhar inerente ao trabalho do antropólogo, porém deve-se agregá-lo às demais fontes de sentidos propostas (ele não pode ter independência). Justificando isto, o uso apenas do olhar ainda não é suficiente para dá significado completo das relações sociais, as estruturas mais importantes das sociedades ágrafas: as teorias de parentesco.

Diante da problemática, Roberto Cardoso de Oliveira sugere que o etnógrafo deve se valer ainda do ouvir. Para ele, o olhar e o ouvir estão intimamente ligados, indissociáveis e até compara essas duas “faculdades” como sendo duas muletas para o antropólogo. Porém, a singularidade do ouvir reside na sua serventia de eliminar os sons insignificantes ou desprezíveis para o corpus teórico da disciplina.

O autor aborda, então, a pertinência de uma entrevista concedida pelo etnólogo aos nativos por meio da qual o pesquisador obtém informações que somente a observação não alcança. Isso tem embasamento na medida em que ao se observar, por exemplo, um ritual, ainda parece inútil sem o entendimento das idéias que a sustentam. É necessária a retenção de explicações fornecidas pelos próprios habitantes da comunidade, ou seja, a descrição através do “modelo nativo”.A entrevista deve conter o confronto entre os dois mundos no contexto entre entrevistador e entrevistado, ou seja, entre o europeu e o americano.

Contudo, esta relação de confronto envolve condições bastante delicadas. Tal relação, traduzida como não dialógica, é criticada ainda por Roberto Cardoso de Oliveira. A caracterização de falso diálogo funciona quando se empobrece o ato cognitivo, pois, no ato da entrevista, força respostas pontuais através da autoridade imposta de quem faz as perguntas. A solução para esta problemática é a alternância entre informante e “interlocutor”, promovendo um encontro etnográfico na medida em que os horizontes semânticos dos dois mundos se encontram com a condição de que o pesquisador tenha a sensibilidade/habilidade de ouvir o nativo e por ele ser igualmente ouvido, colocando os dois num mesmo patamar etnológico.

A partir dos relatos do autor sobre o ouvir, posso falar que este realmente deve se colocar como inerente ao primeiro sentido: o olhar no ato de perceber e entender as relações reais da sociedade estudada, porém tomando os devidos cuidados para o trabalho não tornar-se intimista, o que prejudicaria a pesquisa.

Já o escrever é apontado como configuração final do produto do trabalho de campo. Porém, o olhar e o ouvir constituem a realidade focalizada na pesquisa empírica e o escrever está associado com o ato de pensar. Citando Clifford Geertz com seu livro Trabalhos e vidas: o antropólogo como autor, Roberto Cardoso de Oliveira avalia duas etapas da investigação empírica: o “estando lá”, ou seja, a vivência do estar em campo nativo e o “estando aqui” que corresponde aos trabalhos do pesquisador estando em ambiente urbano, dentro de seu gabinete, longe das aldeias. Resumindo, o olhar e o ouvir fariam parte de uma primeira etapa e o escrever seria a segunda.

É através do escrever que realizamos as interpretações baseadas no nosso próprio bom-senso e por conceitos básicos da disciplina. Contudo, no contexto do being here, essas interpretações sofrem uma nova “refração” no âmbito do lembrar do antropólogo.
A definição de “representação do trabalho de campo em textos” caracteriza a singularidade do texto etnográfico ao se buscar uma articulação entre o trabalho de campo e a construção do texto.

Os artigos e as teses acadêmicas, em relação à monografia, devem ser escritos intermediários. Nas monografias modernas priorizam-se temas centrais através da qual toda a cultura passa a ser descrita, analisada e interpretada. Enquanto nas clássicas, existe uma divisão das peculiaridades da sociedade analisada como em capítulos de uma narrativa.

Existe ainda um terceiro tipo de monografia: as pós-modernas. Estas demonstram desprezo à necessidade de controle dos dados etnográficos o que provoca em um detrimento do próprio paradigma hermenêutico.
É evidente que num trabalho etnográfico há uma pluralidade de vozes. Vozes estas articuladas entre o pesquisador e os habitantes nativos (antropologia polifônica). É responsabilidade do antropólogo distinguir claramente tais vozes sem impor um caráter autoritário e intimista.

Para concluir, coloco a importância do ato de escrever como sendo a textualização dos dados provenientes da observação em campo, procurando soluções normalmente ainda não imaginadas antes de tal ato.






Paralelo entre as reflexões de Roberto Cardoso de Oliveira e Kleber Saraiva em relação à pesquisa de campo antropológica.




Kleber Saraiva, ao escrever, faz reflexões a respeito de sua metodologia e a compara com os escritos de Roberto C. de Oliveira. Desse modo, ele faz citações deste último, abordando as principais regras, de acordo com a concepção de Oliveira, ou seja, o uso dos instrumentos sensoriais da visão e da audição no momento da observação participante e que constituem o primeiro momento do trabalho do antropólogo.

A domesticação destes sentidos também entra no contexto da observação participante a partir da importância da teoria social já existente sobre os acontecimentos a serem analisados. Essa carga teórica a qual deve ser acompanhada pelo etnólogo deve ser anterior ao primeiro passo deste em seu trabalho em campo.
Saraiva faz alusão a todos estes fenômenos e os considera inteiramente pertinentes para o trabalho do pesquisador no que tange os efeitos dos resultados decorrentes do olhar e do ouvir, aplicando melhores oportunidades para a consumição das situações sociais observadas pelo cientista.

Porém, por outro lado, o autor de Sobre os papéis do corpo na pesquisa de campo antropológica, como o próprio nome pode transmitir para uma auto-explicação, o fato do olhar e do ouvir, por si só, ainda não pode levar à completude do entendimento real dos acontecimentos sociais concebidos em campo. Para ele, esses únicos métodos, tidos como regras para Oliveira, podem gerar um quadro vicioso na medida em que são colocados como expressão absoluta, pois tende a insensibilizar a ação etnográfica, supervalorizando o que se conhece teoricamente e limitando o pesquisador ao uso restrito da visão e da audição.

Assim, esses dois sentidos apenas devem ser tomados como guias parciais do pesquisador. Não atendendo a esse procedimento, pode ocorrer um aprisionamento metodológico.

Na proposta de Kleber Saraiva, são dados dois exemplos por ele elaborados: um relacionado à sua experiência vivida em campo com os índios Jenipapo-Kanindé e outro relativo ao ensaio de Glória Diógenes.

Descrevendo a pesquisa com os índios, o autor infere em muitos processos de observação da comunidade, apenas a mecanização do olhar e do ouvir não era suficiente na sensibilização do entendimento dos habitantes da região. Observou a necessidade de relativização dos conceitos como “longo”, “curto”, “estreito” e “largo” e o uso de vários outros sentidos além da visão e da audição.

Glória Diógenes procurou trabalhar com a violência nas gangues e o estudo dos movimentos de hip hop da cidade de Fortaleza nos quais teve de reelaborar os conceitos metodológicos para chegar à apreensão da mentalidade de tais movimentos. Assim, ela observou que apenas pelo ouvir não era possível uma comunicação completa com os entrevistados, afinal eles possuíam uma forma de interação singular.

Concluindo, as ideias de Saraiva estão, resumidamente, atreladas ao uso dos sentidos humanos em sua multiplicidade e manifestações possíveis, permitindo que o cientista possa estar livre para perceber o que realmente é relevante na sua pesquisa e confiando na sua intuição. Nesse sentido, a crítica se encontra através do que Roberto Cardoso de Oliveira impõe com seus métodos estáticos dentro da Antropologia.




(Mari N.) e (Bia G.)
Ler Mais

Metafísica IV




Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré (Assaré, Ceará, 5 de março de 1909 — 8 de julho de 2002), foi um poeta popular, compositor, cantor e improvisador brasileiro.




A Triste Partida


Passou-se setembro
outubro e novembro
estamos em dezembro
meu Deus que é de nós?
assim diz o pobre
do seco Nordeste
com medo da peste
e da fome feroz

A treze do mês
fez a experiência
perdeu sua crença
nas pedras de sal
com outra experiência
de novo se agarra
esperando a barra
do alegre Natal

Passou-se o Natal
e a barra não veio
o sol tão vermeio
nasceu muito além
na copa da mata
buzina a cigarra
ninguém vê a barra
pois barra não tem

Sem chuva na terra
descamba janeiro
até fevereiro
no mesmo verão
reclama o roceiro
dizendo consigo:
meu Deus é castigo
não chove mais não

Apela pra março
o mês preferido
do santo querido
senhor São José
sem chuva na terra
está tudo sem jeito
lhe foge do peito
o resto da fé

Assim diz o velho
sigo noutra trilha
convida a família
e começa a dizer:
Eu vendo o burro
o jumento e o cavalo
nós vamos a São Paulo
viver ou morrer

Nós vamos a São Paulo
que a coisa está feita
por terra alheia
nós vamos vagar
se o nosso destino
não for tão mesquinho
pro mesmo cantinho
nós torna a voltar

Venderam o burro
jumento e cavalo
até mesmo o galo
venderam também
e logo aparece
um feliz fazendeiro
por pouco dinheiro
lhe compra o que tem

Em cima do carro
se junta a família
chega o triste dia
já vão viajar
a seca é terrível
que tudo devora
lhe bota pra fora
do torrão natá

No segundo dia
já tudo enfadado
o carro embalado
veloz a correr
o pai de família
triste e pesaroso
um filho choroso
começa a dizer

De pena e saudade
papai, sei que morro
meu pobre cachorro
quem dá de comer?
E outro responde:
Mamãe, o meu gato
da fome e maltrato
mimi vai morrer

A mais pequenina
tremendo de medo
mamãe, meu brinquedo
e meu pé de fulô
a minha roseira
sem água ela seca
e minha boneca
também lá ficou

Assim vão deixando
com choro e gemido
seu norte querido
um céu lindo azul
o pai de família
nos filhos pensando
o carro rodando
na estrada do sul

O carro embalado
no topo da serra
olhando pra terra
seu berço seu lar
aquele nortista
partido de pena
de longe acena
adeus, Ceará

Chegaram em São Paulo
sem cobre e quebrado
o pobre acanhado
procura um patrão
só vê cara feia
de uma estranha gente
tudo é diferente
do caro torrão

Trabalha um ano
dois anos mais anos
e sempre no plano
de um dia inda vim
o pai de família
triste maldizendo
assim vão sofrendo
tormento sem fim

O pai de família
ali vive preso
sofrendo desprezo
e devendo ao patrão
o tempo passando
vai dia e vem dia
aquela família
não volta mais não

Se por acaso um dia
ele tem por sorte
notícia do Norte
o gosto de ouvir
saudade no peito
lhe bate de molhos
as águas dos olhos
começam a cair

Distante da terra
tão seca mas boa
sujeito à garoa
à lama e ao paul
é triste se ver
um nortista tão bravo
viver sendo escravo
na terra do Sul.











Brosogó, Militão e o Diabo


O melhor da nossa vida
É paz, amor e união
E em cada semelhante
A gente ver um irmão
E apresentar para todos
O papel da gratidão

Quem faz um grande favor
Mesmo desinteressado
Por onde quer que ele ande
Leva um tesouro guardado
E um dia sem esperar
Será bem recompensado

Em um dos nossos estados
Do nordeste brasileiro
Nasceu Chico Brosogó
Era ele um miçangueiro
Que é o mesmo camelô
Lá no Rio de Janeiro

Brosogó era ingênuo
Não tinha filosofia
Mas tinha de honestidade
A maior sabedoria
Sempre vendendo ambulante
A sua mercadoria

Em uma destas viagens
Numa certa região
Foi vender mercadoria
Na famosa habitação
De um fazendeiro malvado
Por nome de Militão

O ricaço Militão
Vivia a questionar
Toda sorte de trapaça
Era capaz de inventar
Vendo assim desta maneira
Sua riqueza aumentar

Brosogó naquele prédio
Não apurou um tostão
E como na mesma casa
Não lhe ofereceram pão
Comprou meia dúzia de ovos
Para sua refeição

Quando a meia dúzia de ovos
O Brosogó foi pagar
Faltou dinheiro miúdo
Para a paga efetuar
E ele entregou uma nota
Para o Militão trocar

O rico disse: ─ Eu não troco,
Vá com a mercadoria
Qualquer tempo você vem
Me pagar esta quantia
Mas peço que seja exato
E aqui me apareça um dia

Brosogó agradeceu
E achou o papel importante,
Sem saber que o Militão
Estava naquele instante
Semeando uma semente
Para colher mais adiante

Voltou muito satisfeito
Na sua vida pensando
Sempre arranjando fregueses
No lugar que ia passando
Vendo sua boa sorte
Melhorar de quando em quando

Brosogó no seu comércio
Tinha bons conhecimentos
Possuía com os lucros
Daqueles seus movimentos
Além de casas e terrenos
Meia dúzia de jumentos

De ano em ano ele fazia
Naquele seu patrimônio
Festejo religioso
No dia de Santo Antônio
Por ser o aniversário
Do seu feliz matrimônio

No festejo oferecia
Vela para São João
Santo Ambrósio, Santo Antônio
São Cosme e São Damião
Para ele qualquer santo
Dava a mesma proteção

Vela pra Santa Inês
E para Santa Luzia
São Jorge e São Benedito
São José e Santa Maria
Até que chegava à última
Das velas que possuía

Um certo dia voltando
Aquele bom sertanejo
Da viagem lucrativa
Com muito amor e desejo
Trouxe uma carga de velas
Para queimar no festejo

A casa naquela noite
Estava um belíssimo encanto
Se via velas acesas
Brilhando por todo canto
Porém sobraram três velas
Por faltar nome de santo

Era lindo a luminária
O quadro resplandecente
E o caboclo Brosogó
Procurava impaciente
Mas nem um nome de santo
Chegava na sua mente

Disse consigo: o Diabo!
Merece vela também
Se ele nunca me tentou
Para ofender a ninguém
Com certeza me respeita
Está me fazendo bem

Se eu fui um menino bom
Fui também um bom rapaz
E hoje sou pai de família
Gozando da mesma paz
Vou queimar estas três velas
Em tenção do satanás

Tudo aquilo Brosogó
Fez com naturalidade
Como o justo que apresenta
Amor e fraternidade
E as virtudes preciosas
De um coração sem maldade

Certo dia ele fazendo
Severa reflexão
Um exame rigoroso
Sobre a sua obrigação
Veio na mente os ovos
Que devia ao Militão

Viajou muito apressado
No seu jumento baixeiro
Sempre atravessando rio
E transpondo tabuleiro
Chegou no segundo dia
Na casa do trapaceiro

Foi chegando e foi desmontando
E logo que deu bom dia
Falou para o coronel
Com bastante cortesia:
Venho aqui pagar os ovos
Que fiquei devendo um dia

O Militão muito sério
Falou para o Brosogó
Para pagar esta dívida
Você vai ficar no pó
Mesmo que tenha recurso
Fica pobre como Jó

Me preste bem atenção
E ouça bem as razões minhas:
Aqueles ovos no choco
Iam tirar seis pintinhas
Mais tarde as mesmas seriam
Meia dúzia de galinhas

As seis galinhas botando,
Veja só o quanto dá
São quatrocentos e oitenta
Ninguém me reprovará
Pois a galinha aqui põe
De oito ovos pra lá

Preste atenção Brosogó
Sei que você não censura
Veja que grande vantagem
Veja que grande fartura
E veja o meu resultado
Só na primeira postura

Das quatrocentas e oitenta
Podia a gente tirar
Dos mesmos cento e cinquenta
Para no choco aplicar
Pois basta só vinte e cinco
Que é pra o ovo não gourar

Os trezentos e cinquenta
Que era a sobra eu vendia
Depressa, sem demora
Por uma boa quantia
Aqui, procurando ovos
Temos grande freguesia

Dos cento e cinquenta ovos
Sairiam com despacho
Cento e cinquenta pintinhas
Pois tenho certeza e acho
Que aqui no nosso terreiro
Não se cria pinto macho

Também não há prejuízo
Posso falar pra você
Que maracajá e raposa
Aqui a gente não vê
Também não há cobra preta
Gavião, nem saruê

Aqui de certas moléstias
A galinha nunca morre
Porque logo à medicina
Com urgência se recorre
Se o gogo aparecer
A empregada socorre

Veja bem, seu Brosogó
O quanto eu posso ganhar
Em um ano e sete meses
Que passou sem me pagar
A conta é de tal sorte
Que eu mesmo não sei somar

Vou chamar um matemático
Pra fazer o orçamento,
Embora você não faça
De uma vez o pagamento
Mesmo com mercadoria
Terreno, casa e jumento

Porém tenha paciência
Não precisa se queixar,
Você acaba o que tem
Mas vem comigo morar
E aqui, parceladamente,
Acaba de me pagar

E se achar que estou falando
Contra a sua natureza,
Procure um advogado
Pra fazer sua defesa,
Que o meu eu já tenho e conto
A vitória com certeza

Meu advogado é
Um doutor de posição
Pertencente à minha política
E nunca perdeu questão
E é candidato a prefeito
Para a futura eleição

O coronel Militão
Com engenho e petulância
Deixou o Brosogó
Na mais dura circunstância
Aproveitando do mesmo
Sua grande ignorância

Quinze dias foi o prazo
Para o Brosogó voltar
Presente ao advogado
Um documento assinar
E tudo o que possuía
Ao Militão entregar

O pobre voltou bem triste
Pensando a dizer consigo:
Eu durante a minha vida
Sempre fui um grande amigo,
Qual será o meu pecado
Para tão grande castigo?

Quando ia pensando assim
Avistou um cavaleiro
Bem montado e bem trajado
Na sombra de um juazeiro
O qual com modos fraternos
Perguntou ao miçangueiro:

Que tristeza é esta?
Que você tem, Brosogó?
O seu semblante apresenta
Aflição, pesar e dó,
Eu estou ao seu dispor,
Você não sofrerá só

Brosogó lhe contou tudo
E disse por sua vez
Que o coronel Militão
O trato com ele fez
Para às dez horas do dia
Na data quinze do mês

E disse o desconhecido:
Não tenha má impressão
No dia quinze eu irei
Resolver esta questão
Lhe defender da trapaça
Do ricaço Militão

Brosogó foi para casa
Alegre sem timidez
O que o homem lhe pediu
Ele satisfeito fez
E foi cumprir seu trato
No dia quinze do mês

Quando chegou encontrou
Todo povo aglomerado
Ele entrando deu bom dia
E falou bem animado
Dizendo que também tinha
Achado um advogado

Marcou o relógio dez horas
E sem o doutor chegar
Brosogó entristeceu
Silencioso a pensar
E o povo do Militão
Do coitado a criticar

Os puxa-sacos do rico
Com ares de mangação
Diziam: o miçangueiro
Vai-se arrasar na questão
Brosogó vai pagar caro
Os ovos do Militão

Estavam pilheriando
Quando se ouviu um tropel
Era um senhor elegante
Montado no seu corcel
Exibindo em um dos dedos
O anel de bacharel

Chegando disse aos ouvintes:
Fui no trato interrompido
Para cozinhar feijão
Porque muito tem chovido
E o meu pai em seu roçado
Só planta feijão cozido

Antes que o desconhecido
Com razão se desculpasse
Gritou o outro advogado:
Não desonre a nossa classe
Com essa grande mentira!
Feijão cozido não nasce

Respondeu o cavaleiro:
Esta mentira eu compus
Para fazer a defesa
É ela um foco de luz
Porque o ovo cozinhado
Sabemos que não produz

Assim que o desconhecido
Fez esta declaração
Houve um silêncio na sala
Foi grande a decepção
Para o povo da política
Do coronel Militão

Onde a verdade aparece
A mentira é destruída
Foi assim desta maneira
Que a questão foi resolvida
E o candidato político
Ficou de crista caída

Mentira contra mentira
Na reunião se deu
E foi por este motivo
Que a verdade apareceu
Somente o preço dos ovos
O Militão recebeu

Brosogó agradecendo
O favor que recebia
Respondeu o cavaleiro
Eu era que lhe devia
O valor daquelas velas
Que me ofereceu um dia

Eu sou o Diabo a quem todos
Chamam de monstro ruim
E só você neste mundo
Teve a bondade sem fim
De um dia queimar três velas
Oferecidas a mim

Quando disse estas palavras
No mesmo instante saiu
Adiante deu um pipoco
E pelo espaço sumiu
Porém pipoco baixinho
Que o Brosogó não ouviu

Caro leitor nesta estrofe
Não queira zombar de mim
Ninguém ouviu o estouro
Mas juro que foi assim
Pois toda história do Diabo
Tem um pipoco no fim

Sertanejo, este folheto
Eu quero lhe oferecer
Leia o mesmo com cuidado
E saiba compreender
Encerra muita mentira
Mas tem muito o que aprender

Bom leitor, tenha cuidado,
Vivem ainda entre nós
Milhares de Militões
Com o instinto feroz
Com traçadas e mentiras
Perseguindo os Brosogós.

Ler Mais
Tecnologia do Blogger.
 
A Tormenta Social | by TNB ©2010