A marcha das vadias de Fortaleza o desafio da mulher Aborto Livre Reflexão política no Brasil
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Os ataques machistas



A eleição para presidente, em 2010, foi um ringue.Demonstrou, claramente, a inexistência de um Estado Laico. Só não enxerga quem não quer.Assuntos polêmicos foram trazidos à superfície: aborto, casamento gay, pesquisas com células-tronco embrionárias.Por quê?

Porque houve uma movimentação efetiva dos segmentos pró-direitos, voltados para a construção da igualdade social.Finalmente, os políticos perceberam que os segmentos pró-direitos fazem barulho e possuem um papel determinante.


A sociedade foi polarizada: reacionários x progressistas.
E, novamente, religião misturou-se com política.
Moral misturou-se com planos de governo.
Gênero virou indicativo de capacidade.




E se o PSDB estivesse no poder, hastearia a bandeira do completo retrocesso.Mas por que falar disso, agora, meses após as eleições, depois, inclusive, da posse?



Justamente porque essa eleição levantou a ira das camadas mais conservadoras. Não é coincidência o aumento de violência contra gays.Não é coincidência a tentativa de desqualificação de uma mulher no poder( só porque ela é mulher, e não pelo seu projeto de governo).A mídia parcial transpôs a idéia de permissividade.E a liberdade de expressão foi confundida com direito de ofender.





Aproveitando o momento de permissividade, os conservadores voltaram a empunhar a bandeira de bastião da moral.Voltaram a enaltecer a opressão do diferente.É o sistema impedindo que os conceitos, já cristalizados, sejam desarticuladas ou rearticuladas.



E farão tudo que for preciso para promover o engessamento dos papéis sociais.É a forma de acabar com a mobilidade dentro da sociedade.Para os conservadores, mulher tem um papel fundamental: o de criada sem remuneração. Então, tendo em vista esse desespero pela retomada do controle, imaginava uma tsunami de machismo contra a Dilma.












E hoje, nessas andanças pela net, deparei-me com montagens envolvendo o rosto da presidenta.As imagens foram criadas pelo site Fashion Dilma.Atentem para o nome fashion.O que é, de fato, ser fashion? Quem definiu o fashion?Por que ser fashion é algo tão relevante?E quem decidiu que o sonho de toda mulher é ser fashion, ou que só mulheres têm obrigação de ser?Isso é um elemento de segregação.



É mais uma ferramenta machista.Um total desrespeito.Pergunto: se fosse o Serra na presidência, haveria esse tipo de “brincadeira”?Não, não haveria.Não haveria porque ele é homem. Homens não sofrem essas tentativas de desmoralização pautada no padrão de “beleza”.Homens não passam por esse tipo de terrorismo, de sabotagem baixa.E por que ninguém questiona o padrão de beleza dos homens?


Porque eles construíram o sistema( para homens brancos e heterossexuais). Porque a maioria deles(e embora seja a maioria, ainda existem homens feministas; estes não fazem mais que a obrigação) beneficia-se com esse sistema.Não abririam mão dos privilégios.A manutenção do sistema legitima a mulher como algo não fundamental.Isso promove o controle e obriga a mulher a esquecer de si, alicerçando sua vida em torno dos quereres de um macho dominador(quando ela deveria prezar seu bem-estar).Mas é culpa das mulheres?Não.Elas são as vítimas.Não se pode transformar vítimas em algozes.Mas até isso o patriarcado promove.






Esse padrão das fotos funciona como um condicionamento do “feminino”.As mulheres são obrigadas a seguir o paradigma cristalizado pelo patriarcado.A idéia transmitida é que a mulher vale o que ela aparenta.Inteligência, competência, experiência, não importam.Se é uma mulher, a obrigação é de ser um adorno, um utensílio.O patriarcado permeia o conceito de mulher boa igual à mulher que não pensa, muito menos que se envolve em política.Sua única missão é servir ao macho alfa.Política não é coisa “feminina”.Política endurece as feições da mulher.E como a imagem vendida é de que todas devem ser puras, perfeitas, resignadas, maternais, não podem ser autônomas.Mulher forte também não é feminina.Mulher boa é a frágil, passível de dominação.Mulher, em cargo de poder, é desconstrução do machismo.E isso é inaceitável para o patriarcado.



Já disse, em outra postagem, que não me sinto representada, politicamente, pela Dilma, justamente por ela ser uma representante do PT.E nessa questão quanto às políticas públicas, não mudo minha opinião.Porém, isso não me faz fechar os olhos para esse machismo voraz.Isso não me impede de enxergar o óbvio.E não me faz compactuar com essa opressão premeditada.Há machistas na direita e na esquerda.Há machistas vestidos em peles de bom moço.Assim como existem mulheres machistas.
E, novamente, o ideal do feminino é permeado mundo a fora.Mas o que é o feminino?O que é o masculino? Quais as finalidades desses papéis?A quem favorece?Por que favorece?São perguntas pertinentes.É uma forma de iniciar a desarticulação dos papéis de gênero.Infelizmente, o sexismo está presente, inclusive, na educação.Isso dificulta a transformação social e a equidade entre homens e mulheres.É necessária a conscientização em massa.É para isso que o Feminismo existe.Enquanto existir subjugação da mulher, vai existir Feminismo.





Sobre essas montagens com as fotos da presidenta, penso ser só o início de um ataque machista.Imagino que mais coisas virão por aí.E não entendo como as pessoas acham engraçado as piadas que envolvem esse padrão de “beleza”.Esse padrão que segrega.Esse padrão que subjuga.Esse padrão que menospreza, que reduz as pessoas.Esse padrão que engole a vida de tantas mulheres.Um padrão doentio.Um padrão superficial.Algo que vai além do bem-estar.A necessidade viciante do parecer ao invés do ser.É um peso que recai sempre sobre a mulher.




Está na hora de parar de rir de tolices.É o momento de desarticulação.É o momento de transformação social.Está na hora de enxergar a realidade.Tirar a venda do comodismo.Homens e mulheres são iguais.Nem piores.Nem melhores.Nenhum com a obrigação de ser perfeito.Nenhum com o dever de manter a idéia distorcida de pureza.É preciso colocar essa isonomia em prática.

(Mari N.)


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Peripécias de ano novo





Tudo começa no natal.Ou melhor, na véspera de natal.Aquela felicidade pulando nos galhos das árvores.Ruas abarrotadas de bandidos, preparados, em seu espírito natalino, para a ceia financeira.Supermercados entupidos de vítimas não tão vítimas.O comércio ajoelhando, aos seus pés, como anjo do mal, para endividar-lhe.Os pisca-piscas engatados nas janelas.Piscam tanto que nada iluminam.

Belíssimas cartinhas, com ortografia torta e reprodução de hieróglifos, são enviadas ao bom velhinho; o todo generoso Papai Noel(símbolo do consumismo), que mora no cruzamento do Pólo Norte com Alameda Nunca.
As dores, nas juntas, impedem-lhe de cumprir a sacrossanta missão: quebrar chaminés com renas voadoras.Porém, sabemos que isso só com efeito de alucinógenos.E como não somos Alice, nada de coelho branco, Papai Noel e Paulo Coelho para nós.



Nessa época do ano, as famílias reúnem-se.A hipocrisia, mais solicitada que Roberto Carlos no show da Globo, acompanha cada palavra que sai da boca daquela tia chata.Ou envolve cada repreensão do tio conservador.E, como não pode faltar em toda reunião familiar, tem sempre o primo que se acha a encarnação do Bill Gates.Você conta, mentalmente, de um a dez.


Não adianta.É quase a Guerra Fria.Paz armada.Você prepara a bomba nuclear.Seus pais riem orgasticamente.A tia de quase cem anos pergunta quando você vai casar.O tio religioso prega a Bíblia na varanda de casa.


O primo conta vantagem sobre alguma garota fantasma.E você já passou da contagem de cem.O pensamento latente é: fuja para as colinas.Mas você continua paradinha, quietinha, olhando para o relógio de cinco em cinco minutos.



E todos fingem amor.Claro, é o momento de perdão, reconciliação, retomada de laços.Tanto é assim que, basta entrar o ano novo, a primeira coisa, que o irmão do seu pai diz, é: “aquele mão-de-vaca ainda não pagou o dinheiro que me deve.Tem grana para gastar em festa de natal, mas não tem para pagar meu dinheiro”.Reconciliação sincera, não?Ninguém esquece o bolso.E o melhor é quando os amigos dos seus pais chegam à casa da família.Você não conhece ninguém.Contudo, eles, por alguma implicância reprimida, investigam se você os reconhece.Talvez, não atentem para o fato de que, nos seus três anos, identificar pessoas era tão importante quanto saber o nome dos quatro Beatles.E aproveitando o ensejo, sua mãe, incorporando o espírito político natalino, faz promessas que você não pode cumprir, como o de passar menos tempo no computador(cuidando do blog); iniciar uma dieta( se for gordinha); engordar alguns quilos( se for magrinha); passar em Medicina( mesmo você querendo Jornalismo); arrumar um casamento( ainda que você tenha nojo de compromisso).Mas eu não falarei mal do casamento porque, senão, alguém dirá que é coisa de feminista xiita que deseja destruir os lares com seus pensamentos anarquistas.





A música da Simone tocou dez vezes.Papai Noel embriagou-se em um bar qualquer da Rússia.Alguns tios já estão vendo Jesus nascer.Outros falam mal da vida alheia.Seus pais bancam o casal perfeito.Os fogos estouram.Vozes misturam-se. Gargalhadas.Reprimendas.Garrafas.As renas no céu.Presentes cheios de tédio.Você esquecida no sofá.O relógio que não anda.Bebe água, e é aguardente.Pega um salgadinho.É de frango.Você enjoa.E o peru continua na mesa, com as pernas pro ar, mais desesperado que você, tão estático que não lhe ocorre correr e procurar um amor de natal.



Penso que o peru é a maior vítima do natal.Dizem que ele também escreveu uma cartinha ao bom velhinho.Papai Noel leu de olhos fechados.Adeus, peru!Enfim, a ceia.Todo mundo come.O prejuízo aumenta.E a noite acabada.


Quem dera os momentos de confraternizações não fossem tão fraternos assim.Seria bem mais interessante um natal para lavar a roupa suja.Levaríamos uma língua ferina, cheia de acusações, mais rápida que as personagens do faroeste.Vestiríamos coletes à prova de bala.Montaríamos trincheiras. Descarregaríamos a raiva.Cobraríamos o parente trambiqueiro.Falaríamos mal da religião do tio chato.Mandaríamos a tia intrusa cuidar da própria vida.E quanto ao primo com complexo de Narciso?Engula as histórias falsas, o carro que não tem, o trabalho que não conseguiu, junto ao ego que não pára de crescer.



Essas são as coisas que só fazem sentido no natal, porque, como disse, é uma época de paz interna e reconstrução dos laços familiares.E não há melhor maneira de recomeçar do que destruir tudo, não?


Então, uma semana passa voando, e chegamos ao dia 31 de dezembro.O ponto principal da história.Foi atribuído, ao réveillon, a idéia de renovação.Mentira!É só um feriado que justifica a ressaca alheia.Falam até que é um momento de retomada.Só se for a retomada da garrafa de Johnnie Walker deixada pela metade no natal, a cervejada não feita naquele happy hour, ou a insana vontade de encher a cara.Como não bebo, nada tinha a retomar.Na véspera do ano novo, resolvi que a minha comemoração seria na casa de uma amiga.A noite começou bem.Peguei o ônibus errado.Primeiro, ele quis olhar as paisagens de Fortaleza, e rodou tanto que me deixou tonta.Depois, parou em uma avenida praticamente deserta.E, por fim, percebi que não sabia como chegar à casa dela.Resultado: o réveillon é a retomada da raiva; o aviso prévio de que você vai se estressar muito em 2011.


Com a minha sorte, e se fosse supersticiosa, pularia quatorze ondas.Sim, quatorze completas ondas.No meu caso, sete ondas não resolvem.Preciso assegurar-me de que a sorte não errará de endereço.Mas como sou agraciada pela justiça divina, capaz de afogar-me na terceira onda.Nada de praia para mim.


Após horas de ônibus, minutos sem fim de caminhada, encontro com o condomínio errado e o começo do manquejo, deparei-me com o prédio certo.Aleluias tocaram?Não.Nessa hora, ouvi a música sertaneja vindo da rua.Os sinos não dobraram por mim.Lástima!


Esperei mais uma hora e a minha amiga chegou, depois de um dia de completa exploração no seu trabalho semi-escravo.Porém, faltava o principal de uma comemoração: comida.Ninguém vive sem comida.Ninguém suporta a ausência de algo tão prazeroso.Quando uma festa não presta, você se apega à comida.Você ri da comida.Abraça-a.Quase adota como membro da família.E eis que foi a nossa vez de colocar os talentos culinários em prática.O problema é nossa completa nulidade de talentos na cozinha.Nenhuma sabia cozinhar.Resultado: criação de uma receita secreta, mais tão secreta que nem nós sabíamos o segredo.Prato da noite: arroz papa regado a molho shoyo; macarrão sem gosto entupido de ketchup; ovos deformados e, parcialmente, sem sal.E como não podia faltar, água bem geladinha, já que suco de limão não é o meu forte.Ficou muito bom.Pasmem! E era, exatamente, meia-noite.Fogos explodindo.Comida estranha.E filme na tv: a órfã.


Além das receitas com sabor de loucura, o ano novo traz aquela carga dramática.As pessoas percebem que seus casamentos continuam uma droga.Nenhuma sexóloga daria jeito.As contas não se pagam sozinhas.O trabalho ainda é uma chatice.Seus pais continuarão criticando-lhe.O Papa não morreu.Você está como a Grécia: em crise financeira.E se for solteira(o), o amor sacaneará você novamente.Fora a inspiração da amizade no réveillon; pessoas que nem lhe conhecem vêm abraçar e fazer votos de paz, alegria e felicidade.



O ano entra.A praia suja.Papai Noel adota a ressaca.As famílias voltam à guerra.O mundo continua girando.Você segue envelhecendo.O amor vai rindo.Os amigos somem.As obrigações multiplicam-se.




E o que fazer?

Peça para a felicidade, finalmente, descer da árvore.


(Mari N.)
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A posse da Dilma


















No sábado, dia 1 de Janeiro, iniciou-se um novo governo.Lula deixava a presidência e a faixa era passada à Dilma Rousseff.Com um discurso acalorado, entrava , na história do Brasil, como a primeira presidenta.


“A partir deste momento, sou a presidenta de todos os brasileiros, sob a égide dos valores republicanos”
“Venho para abrir portas para que muitas outras mulheres também possam, no futuro, ser presidentas; e para que - no dia de hoje - todas as mulheres brasileiras sintam o orgulho e a alegria de ser mulher”.
“Não vou descansar enquanto houver brasileiros sem alimentos na mesa, enquanto houver famílias no desalento das ruas, enquanto houver crianças
pobres abandonadas à própria sorte. O congraçamento das famílias se dá no alimento, na paz e na alegria. É este o sonho que vou perseguir!”


Quem me conhece sabe que não sou simpatizante do PT.Bom, as duas donas do blog não são.Mas falarei, apenas, por mim.Fui, um dia, simpatizante.Acho que o PT sofreu uma descaracterização tremenda.Um partido, antes de esquerda, que visava ao trabalhador, possuía uma ideologia forte, acabou por dar uma assistência maior aos banqueiros.E as políticas, em prol das minorias, foram, de novo, varridas para baixo do tapete.Embora não seja admiradora do PT, não consigo conceber a idéia do PSDB no poder.Imaginar outro neoliberal hipócrita me dá vertigem.Quem não lembra da Vale do Rio Doce?Mais uma onda de privatizações arrasaria minha crença na política nacional.





Convenhamos que Serra seria a pior escolha para a presidência.A educação, que já não é das melhores, iria ralo abaixo.Nunca vi tucano investir no ensino público.São partidários ferrenhos do Estado mínimo e das privatizações.Só não privatizam a si porque não daria lucro.


Vale ressaltar que a eleição de 2010 foi a mais baixa no quesito ética.Casamento gay e aborto viraram moeda de troca.Os segmentos evangélicos aproveitaram-se da situação, interferindo, novamente, nas políticas públicas.Tanto Dilma quanto Serra promoveram a manutenção de um sistema de privilégios, onde os grupos, historicamente oprimidos, voltaram ao seu papel comum: a vassalagem.E o Estado laico foi parar em algum lugar de Pasárgada.

Em longo prazo, como conseqüência desse jogo sujo em busca de poder, temos as reações homofóbicas, machistas, xenofóbicas, que vagaram Brasil a fora.Os ataques na Avenida Paulista e as mensagens de incitação ao ódio nas redes socias.


Uma mulher, no poder, é uma conquista para a causa Feminista.As mulheres só ocupam 9% dos cargos parlamentares.

Não digo que toda mulher que ocupa um cargo de poder vai desenvolver políticas em benefício de outras.
Mas no caso da Dilma, ela representava o marco da emancipação da mulher e do seguimento de um governo voltado para as camadas subjugadas.
Teoricamente, um governo que assistia as pessoas mais pobres, não é?


Embora sejamos donas de 51, 7% do eleitorado, só em 2010, uma mulher foi eleita, mesmo sob fortes críticas pelo simples fato de ser mulher.Sua competência era medida pelo gênero.



Uma presidenta demonstra maior projeção feminina na política e em outros âmbitos da sociedade.Por isso, eleger uma mulher figura o processo de conquista de direitos. Mas apesar de eu ser feminista, não me sinto representada por ela.


Não votei na Dilma.Não votaria se as eleições fossem hoje.Não concordo com os planos de governo.Não gostei de como a política foi tratada durante as eleições de 2010.Acho que, muitas vezes, há uma omissão por parte dos presidentes.Depositei minha crença no Lula, em 2002.Não vingou.


Porém, não posso fechar os olhos para a transformação política, social e econômica que o Brasil sofreu.Maior projeção externa; milhões de pessoas saíram da linha da pobreza; investimentos na educação pública, com a construção de 214 escolas técnicas e 16 universidades federais; introdução de 15, 5 bilhões no FNDE(Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação).




Entretanto, não acho que houve transparência.Acho que existiu um comum acordo entre governo e banqueiros.Lembram da Reforma da Previdência, em 2003?Lula começou cuspindo na cara do trabalhador.E para quê?Para pagar as dívidas públicas com os banqueiros. Eles lucraram 236 bilhões no governo Lula.


Não acho que houve uma tentativa profunda de desconstrução das mazelas já arraigadas.Vi métodos paliativos nas políticas públicas.Não gostei dos escândalos que marcaram a sua administração.Não gostei do apóio ao José Sarney, mesmo ante um cenário de puro despotismo e nepotismo.


O Brasil tinha condições de promover transformações profundas, voltadas, realmente, para as camadas pobres.E diante dessa omissão, que custa a vida de muitos, desacreditei do PT.Sabemos como os jogos políticos se constroem.Os financiamentos das campanhas já demonstram a entrega ao empresariado.E quem paga?O trabalhador e a trabalhadora que não têm a quem recorrer.


Meus motivos para não vibrar com outro governo do PT?



1)Na casa civil, tem-se Antônio Palocci.Sim, aquele que foi cassado por corrupção.O mesmo responsável, em 2003, pelos reajustes fiscais e altos juros.Vibremos!



2)Corte nos gastos públicos para 2011.Guido Mantega anunciou que o corte será de cerca de 20 bilhões.E isso é apenas o começo.Manutenção dos serviços públicos parece que não é prioridade.E o aumento salarial ridículo, de apenas 30 reais.O que isso significa?Infelizmente, isso significa que, novamente, os trabalhadores(as) irão sofrer.



3)A crise.A Globalização mandou avisar que, economicamente, nosso país é regido, em grande parte, pela dinâmica das multinacionais.O que acontece é que tanto os EUA quanto a Europa estão passando por agravamentos da crise econômica, com altos índices de desemprego, rombos nos fundos públicos por causa dos estímulos fiscais e cortes nos gastos públicos.O governo brasileiro estima que, em 2011, haverá um rombo de 50 bilhões de dólares por causa do mercado externo.


4)Corte de 3 bilhões no PAC.



5)Política voltada totalmente para os banqueiros e, parcialmente, para o trabalhador.(Esse parcial é só para manter a boca das pessoas repleta de pães enquanto elas são obrigadas a assistir às novelas da Globo, o circo)




Esses motivos são suficientes.Devido à manutenção da política econômica, o trabalhador(a) vai suportar todo tipo de opressão.As camadas mais pobres é que vão sofrer quando a saúde, a previdência social e a educação sofrerem interferências.O desemprego vai ser um fantasma soprando ao ouvido dos menos favorecidos.E os banqueiros?Vão se aproveitar das verbas públicas, como sempre fazem.





Fico feliz que, finalmente, uma mulher esteja no poder.Mas não fico feliz por essa mulher ser a Dilma, uma representante do PT, partido que deixou de lado sua ideologia.Precisamos de mais mulheres na política.Precisamos ter opções.Esses 9% dos cargos parlamentares, quando somos mais da metade do eleitorado, é a marca do quanto o Brasil é um país machista.

Ouvi todo tipo de comentário maldoso sobre uma mulher não conseguir orquestrar um país.Vi, na imprensa parcial, leia-se Veja, Globo e Folha de São Paulo, o intento da manobra baixa, tentando demonizar uma candidata pelo único e exclusivo motivo de ser mulher.

Assisti aos ataques de um candidato desesperado, conservador e hipócrita, que gostava de aplicar, à Dilma, o que as mulheres, na sociedade, comumente sofrem: as prendas da boa mulher, as qualidade virtuosas de mulher digna.Aquelas mesmas qualidades que nos são imputadas antes de sairmos do ventre materno.Esse mecanismo de controle para que haja um domínio sobre o papel da mulher, para que ela faça a manutenção do patriarcado e seja desmoralizada, oprimida, quando foge do padrão.


Simone de Beauvoir deixou claro, em seu livro, “O segundo sexo: fatos e mitos”, a condição do eterno feminino.Trabalhou a cristalização das convenções na idéia das virtudes da boa mulher, de modo a condicioná-la a um paradigma comportamental do feminino, onde ela não é enxergada como um ser autônomo, logo, não vista como essencial.

A caracterização da mulher como algo inútil, de perspectiva fútil, maternal e resignada, gera segregação social, subjugando mulheres e inferiorizando-as. Então, em um país machista, com valores pautados na família(patriarcal), pátria(machista/homofóbica/racista) e moral(crivada pela conduta cristã proposta por igrejas), uma mulher, na presidência, é um momento histórico, uma conquista sem precedentes e um chute no ego de macho alfa de alguns por aí.


Como havia dito, não me empolgo com o fato de ser um novo governo do PT.Reconheço a conquista para as mulheres.Reconheço a validação de alguns ideais Feministas.Porém, não me sinto bem ao perceber que, mais uma vez, os pobres irão pagar para que os banqueiros tenham seus lucros assegurados.





Espero, um dia, eleger, sim, outra mulher, mas por quem eu tenha empatia.De toda forma, o ano novo foi marcado pela posse da Dilma.E, agora, teremos mais 4 anos de governo.Desejo que a haja mais conquistas que infortúnios.


Boa sorte a nós, mulheres!Boa sorte a nós, trabalhadores e trabalhadoras!Boa sorte ao povo brasileiro!





Acho que precisaremos muito disso.



(Mari N.)
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Brasil Colonial II




1)Vivência religiosa

As práticas religiosas, definidas pela Igreja Católica, eram da oração pessoal e do culto público.Os ritos públicos tinham como função primordial o controle social e a manutenção da hierarquia da Igreja.Mas no Brasil, como os centros urbanos eram pouquíssimo e não possuíam tradição associativa , as celebrações eram abandonadas ou realizadas no interior das Igrejas, ou ficavam restrita às celebrações domésticas.


Existia uma clara diferença no tocante das características sócio-econômicas, visto que as elite branca afastava-se das pessoas menos abastadas e de cor, isolando-se atrás das balaustradas e colunatas próximas ao altar-mor.Posteriormente, os mais nobres construíam seus locais de culto, desta forma, evitando o contato com os fiéis de outras raças e de status inferior.A falta de compostura dentro das Igrejas coloniais é algo passível de análise, já que os colonos aproveitavam o espaço para se socializar, flertar, mostrar o status, trocar bilhetes furtivos, tocar o corpo das donzelas, como formas de vaidade e ostentação.


Eram fixadas três orações diárias: às seis da manhã(hora do ângelus), ao meio-dia(hora que o diabo está solto),às seis da tarde(hora de ave-marias).Em muitas casas urbanas, existia uma cruz pregada à porta da entrada; nas zonas rurais, elevava-se uma bandeira com um santo, que demonstrava a preferência familiar.Dentro da casa, ficava as imagens, quadros, amuletos, que davam a idéia de sacralização do ambiente.


Na parede contígua à cama, havia um símbolo visível da fé cristã; o rosário era pendurada sobre a cabeceira da cama.Os cristãos, antes de levantar, deveriam fazer o sinal da cruz, recitando a oração.Como tradição católica, mesmo antes do amanhecer, fazia parte do ideal de piedade a entrega da alma do pecado a Deus.Os seguidores da Lei de Moisés também possuíam piedosas orações.Na parede da sala de muitas casas coloniais, localizavam-se quadros dos santos de maior apego e, muitas vezes, era deixado uma tigela com óleo de mamona, onde uma lamparina queimava diuturnamente, prestando homenagem ao santo de devoção.


O oratório funcionava como um relicário, onde eram conservadas as relíquias relacionadas ao divino.Nesse espaço também eram guardados talismãs aceitou ou tolerados pela Igreja.Os santos e os oratórios eram bentos e abençoados pelo vigário durante as visitas nas residências, porém, nem sempre a relação entre a imagem dos santos e os fiéis era dentro das normas permitidas pela ortodoxia católica.Também era comum a construção, nas propriedades rurais mais abastada, de pequenas capelas que possuíam um sacerdote residente ou a assistência de algum clérigo, que amparava religiosamente os senhores e seus escravos.Essas construções eram sinônimos de status e de obrigações religiosas.


2)Pieguismo Barroco

Os católicos da colônia acreditavam na máxima de que a fé sem obras de nada valia, elegendo a penitência como algo complementar à oração.As mortificações eram praticadas em âmbito público e privado, funcionando como um elemento necessário para a purificação das almas mais selvagens e frígidas.Tanto os religiosos quanto os leitos entregavam-se à autoflagelação.



A religiosidade era expressa por uma forte emoção, criando o ideal ao gosto Barroco.A devoção aos santos e às relíquias viravam obsessão para os mais crédulos.Cada devoto possuía sua organização para oração, guardando-se com os seus santos protetores e prediletos e seu anjo da guarda.



Os quadros de milagres e ex-votos demonstram a relação íntima que existia entre os fiéis e os santos de devoção, visto que são dramáticas e delineiam uma espécie de tentativa de salvação.Pode-se caracterizar os colonos brasileiros, de acordo com a fé católica, em grupos distintos:

2.1)Católicos praticante fervorosos:
Aceitavam os dogmas, a moral católica, a hierarquia eclesiástica, demonstrando uma fé inquestionável.

2.2)Católicos praticantes superficiais:
Cumpriam os rituais católicos e deveres religiosos por obrigação e não por convicção.


2.3)Católicos insatisfeitos:
Evitam os sacramentos, os rituais, por serem indiferentes à fé católica e praticar um rito heterodoxo.


2.4)Falsos católicos:
Por conveniência, diziam-se católicos, mas só para cumprir com as funções sociais e evitar a representação inquisitorial.Boa parte dos cristãos-novos, animistas, libertinos e ateus.Guardavam crenças heterodoxas ou sincréticas.


Gradativamente, foram se cristalizando diversos tipos de vivência com base na religião.Na doutrinação dos fiéis da colônia, fazia parte a crença em um Deus onipotente, juiz justo e comandante dos exércitos, que castigava aquele que pecadores e dissidentes de suas leis, rogando-lhes pragas, pestes, e infortúnios.A contrição funcionava para os fiéis uma mão única para alcançar a virtude.Existiam católicos que se dedicavam à vida religiosa por prazer, utilizando-se do ritual de autoflagelação física e espiritual.




3)Modelo de vivência católica


Os conventos e mosteiros femininos foram fundados tardiamente, e eram muito raros e dispersos.Muitas donzelas católicas fervorosas entregavam-se ao claustro domiciliar, elevando à consagração de corpo e alma ao Divino Esposo.Dedicar-se aos sacrifícios e mortificações tinha como fundamentação a perfeição mística.Os colonos demonstravam maior intimidade com a corte celeste do que com as autoridades constituídas.


4)Devoção aos santos

O sacrilégio com a imagem dos santos era atribuída aos judeus e cristãos novos, como, por exemplo, jogar o santo no urinol, ou pinicar a imagem com agulha.


Essas práticas se davam pelos crentes de outras manifestações religiosas que eram obrigados a viver camuflados no catolicismo para promover seu bem estar social e fugir do Santo Ofício.No seu lar, essas pessoas descarregavam sua descrença nos símbolos cristãos.Outro caso de sacrilégio contra os santos era quando este não atendia um pedido do fiel.


Com isso, os ritos menos ortodoxos eram acionados, como os pactos com o Diabo, as simpatias, ensalmos e orações fortes, que eram estritamente proibidas pelas Constituições do Arcebispo da Bahia, mas que fazia parte da crendice popular.


No lar, as práticas religiosas davam vazão ao sentimento, tanto dos mais crentes, que buscavam a virtude por base da humildade, da penitência, quanto dos mais heterodoxos, que viam em sua morada a fuga dos olhos públicos sobre suas práticas.



5)Simpatias domésticas

A hierarquia católica se opunha rigorosamente as superstições, feitiçaria, crendices, considerando-as diabólicas.Era comum homens e mulheres recorrerem a feiticeiros em caso de doenças graves, que não haviam sido curadas pela Igreja e nem pelos remédios.Essas práticas foram condenadas com pena de excomunhão.Também eram excomungados aqueles que usassem objetos pertencentes aos ritos heterodoxos, como era o caso da pedra de ara, bolsas de mandingas e patuás.


Os párocos eram ordenados a advertir os fiéis durante os púlpitos, explicando o peso desses desvios.Mas no Brasil colonial, em toda localidade, encontrava-se rezadeiras, benzedeiras, adivinhos.As práticas se misturavam.Mais de centenas de católicos, em pequenas vizinhanças rurais, por exemplo, utilizavam-se de uma gama de bênçãos proibidas, pelos quais sofreriam castigos graves, como até mesmo açoites, multas.O baixo clero demonstrava indiferença diante desses ritos heterodoxos.


Em Minas Gerais, por exemplo, era comum a prática do “calundu”: um rito caracterizado pelo estrondo dos atabaques e pandeiros.Tanto sacerdotes quanto fiéis mais afincados sentiam-se impotentes diante de tais rituais, mesmo enxergando-os como algo diabólico, passível de castigos rígidos.


6)Práticas particulares

Embora muitos desviantes da fé católica mostrassem sua ousadia, seja por parte dos protestantes, cristãos novos, judeus, ateus, feiticeiros, ainda assim, buscavam a ocultação das crenças e rituais, visando não despertar a repressão da justiça civil e inquisitorial.

Obedecendo ao jargão que diz: o segredo é a alma do negócio, isso funcionava em questões religiosas, que se utilizavam da camuflagem para evitar as denúncias e ter o monopólio de certos poderes.Os artifícios usados pelos heterodoxos eram inúmeros, mas vale salientar três: realizar cerimônias proibidas em locais reservados ou distantes; ocultar-se na madrugada; camuflar-se.


Os adeptos dos rituais africanos instalavam-se em locais mais distantes da povoação, evitando a atenção pública, desta forma, evitando a repressão; outro motivo seria a aproximação com os deuses da África.



7)A confissão dos pecados


O confessionário tinha caráter privado e público.Deveria promover a privacidade entre sacerdote e fiel na hora da confissão, permitindo que só o clérigo pudesse ouvir a confissão.O caráter público era ser o de alcance ao olhar das pessoas, desta forma, intimidando o fiel a ceder às tentações.A confissão era indispensável à vida cristão.E a narrativa detalhada dos pecados era obrigatória.O padre era obrigado a citar os nomes dos confessados, sobrenomes, lugares onde viviam, a rua onde morava, a casa, o sítio ou fazenda.



A excomunhão era o preço que o fiel pagava por não cumprir esse dever.O sacerdote, após a confissão, deveria assumir uma figura paternal, humilde, de caridade, analisando o estado do fiel para dar-lhe a penitência correta.Muitos párocos desobedeciam às Constituições, promovendo a confissão em lugares públicos, dentro da sacristia, nos alpendres das casas, indecentemente vestidos.Outros sacerdotes impunham medo aos fiéis, visto que criticavam ferinamente seus fiéis, delatando seus pecados, condenando-os, xingando-os.Alguns padres exigiam presentes em troca da confissão, e determinavam castigos àqueles que não seguissem suas normas.


A maioria dos clérigos da época colonial tornava público aquilo que lhe fora confessado.O sigilo da confissão era quebrado.Nem todos os católicos da época eram possuidores de confiança nos párocos, o que acabava por levar-lhes a ocultar e mentir sobre seus verdadeiros atos.Existiam também aqueles que se confessavam mais por convicção ideológica.Gradativamente, muitos fiéis tornaram-se neuróticos, sempre em dúvida se haviam feito a confissão inteira ou se tinham ocultado algo.


Temendo os castigos, e para se reassegurar sobre a coisa certa, confessavam duas vezes o mesmo pecado.Além desses fatos, existiam também os convites indecentes às mulheres.
A cristalização religiosa, no Brasil colonial, deu-se pela sincretização de vários ritos.Isso é explicado pela diversidade cultural que o Brasil englobou.
(Mari N.) e (Bia G.)
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O papel do professor





O método pedagógico é uma das questões mais difíceis em relação ao trabalho do professor.Nunca se sabe qual é a forma mais adaptável, tendo em vista a diversidade da personalidade dos alunos.Para corroborar com essa dificuldade, tem-se o fato da própria escola, muitas vezes, não apresentar a estrutura necessária para o ensino.

O papel do professor fundamenta-se, então, na dicotomia, pois reside nas linhas contraditórias,ora do autoritarismo ,ora da democracia em sala.Como chamar a atenção dos alunos, fazê-los ouvir, incitar-lhes a sede do conhecimento, sem antes haver uma espécie de conquista gradual, ou total imposição do educador?O respeito confunde-se com a auto-afirmação da figura do professor, que monopoliza a voz em sala de aula, deixando de lado a opinião dos alunos.Porém, quando assume um posicionamento mais flexível, perde controle em suas aulas.Difícil é saber dosar até onde essa flexibilidade deve ir para manter a ordem e, ao mesmo tempo, proporcionar um ensino prazeroso.

François Dubet, na entrevista “Quando o sociólogo quer saber o que é ser professor”, narra sua experiência como educador, percebendo a dificuldade no posicionamento do professor, pois este se sente frustrado, no início da experiência, externando as várias facetes que o educador deve usar para, diariamente, ter a atenção dos educandos.Grande parcela dos alunos visualiza o professor como um obstáculo, um inimigo que rouba seu espaço.

Infelizmente, esse abismo deve-se à impessoalidade do muitos educadores, que vêem o aluno como uma ferramenta do sistema, quando deveria enxergá-lo como um ser humano que tem problemas pertencentes a sua idade, ao seu círculo social.Contudo, o ensino tornou-se mecanizado, criado para um aluno padrão que não existe.Quando o professor assume um papel mais protetor, de se importar com o histórico do aluno, interessando-se por seus problemas, isso favorece o elo entre educador e educando, firmando uma relação mais emocional, baseado na troca, do que na unilateralidade fria e distante que o sistema criou.

Os professores mais eficientes são os que demonstram crença em seus alunos, instigando-lhes a luta pela evolução pessoal.O papel do professor é realmente complexo, pois além de formar profissionais, ele forma também seres humanos, então isso cria uma certa hostilidade diante daquilo que é dito pelo educador, pois existe um receio inicial de se voltar contra aquilo que lhe é exposto, como forma de protesto tão peculiar da juventude.Isso gera uma confusão até na postura do educador, que precisa se reinventar, todos os dias, a fim de prender a atenção dos alunos.

Existem grupos dissidentes dentro de uma sala de aula; alguns optam por seguir as regras, por estudar; outros optam por manifestar seu repúdio, desligando-se daquilo que é ensinado.De qualquer forma, neste fogo cruzado, fica o professor, que acaba escolhendo quais alunos devem ser deixados à margem e quais devem receber uma atenção especial, como forma de reconhecimento.Todas essas problemáticas, de alguma forma, acabam frustrando o profissional da educação, que se vê preso às convenções, ao sistema e à política educacional.

Funda-se um mito na figura do professor, estigmatizando-o de autoritário, reacionário e frio.Mas como ficar a par de todas as questões relativas aos alunos, sendo que o professor, como qualquer outro ser humano, também possui os seus problemas?Quando entra em sala, o professor entra em um julgamento contínuo, onde os educandos o desnudarão e, posteriormente, o sentenciarão como digno ou indigno de consideração.

A padronização do ensino não põe fim às dificuldades.A uniformidade do método não é a saída.É preciso começar pela reinvenção do sistema educacional, estabelecendo novos pilares que a sustentem, de forma a não marginalizar os jovens, a não excluir uma parcela, a não estigmatizar o professor e nem mecanizar o conhecimento ou torná-lo um produto vendável.Quando novas diretrizes traçarem o um ensino mais sensível aos seres humanos do que indiferente a eles, poderemos ver uma gradual transformação no campo da educação, sem haver a necessidade de auto-afirmação e descrédito do sistema educacional.


(Mari N.)

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Metafísica III




Nada é impossível de mudar


Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito
como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.


(Bertolt Brecht)-(1898-1956)-Dramaturgo e poeta alemão. Revolucionou o teatro com peças que visavam estimular o senso crítico e a consciência política do espectador.
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A Filosofia e as Ciências Sociais





1)Fale sobre a Filosofia e sua relação com as Ciências Sociais.


Resposta: A Filosofia procura, através de uma atitude objetiva ou imparcial, buscar resposta para uma série de questionamentos levantados com a finalidade básica de fugir do senso comum. Uma atitude filosófica tem como embasamento a criticidade, ou seja, é um ato de negar os pré-conceitos e pré-juízos, constituindo um desapego às idéias de aceitação de “verdades absolutas” e, ao mesmo tempo, pregando interrogações as quais seriam irrelevantes para o pensamento comum.


Presume-se, pois, que tal idéia de negação venha a causar impactos no estudo do homem sobre o homem a partir do momento em que a admiração e o espanto tomam lugar dos conceitos pré-gerados. Facilita-se, desse modo, o trabalho do filósofo da elaboração de indagações a respeito do que somos, por que somos, como somos, por que devemos, por que vivemos assim etc.

Portanto, a ação científica do pensar pressupõe a consciência da existência de crenças, sentimentos, valores etc. Porém estes fatos devem ser observados pelo cientista a partir de certo nível de exterioridade, buscando questionamentos pertinentes dos “por quês” das idéias, situações e comportamentos. Um estudo minucioso da existência cotidiana dos homens.

As Ciências Sociais, através do estudo detalhado da sociedade, do relacionamento do homem inserido no meio em que vive, das ações individuais ou institucionais, necessita, portanto, desta criticidade e da objetividade já trabalhadas pela Filosofia, assim como o aspecto da observação exterior e da reflexão radical, formulando hipóteses, analisando, comparando, buscando princípios e levando a uma melhor compreensão do mundo.

Estas questões filosóficas são de suma importância para as Ciências Sociais que tomam a Filosofia como a “mãe de todas as ciências” com a pretensão de serem conhecimentos verdadeiros a partir de métodos severos de pensamento. Assim, é uma pré-condição para o cientista social tomar por base tais questionamentos rigorosos na metodologia do trabalho científico. É papel do pesquisador, enquanto cientista social, examinar o já conhecido pelos filósofos, questioná-las e imaginar novas possibilidades.


2)Em que sentido se diz que a Filosofia é um pensamento organizado e sistemático?


Resposta: A definição de pensamento sistemático ainda está posicionada no âmbito da busca pela cientificidade e pela crítica que caracterizam uma diferenciação daquilo abordado pelo senso comum.


A sistematização do pensar contrapõe a idéia da noção reducionista, ou cartesiana, mecanicista e pragmática no meio científico e cultural na qual a observação é realizada separando-se os fatos como se não estivessem entrelaçados. A experiência histórica mostra que fragmentar os acontecimentos não denota um bom conhecimento da realidade. Um exemplo disso seria a difusão da desigualdade social.

Sistematizar significa, basicamente, investigar, analisar minuciosamente os aspectos estudados. Significa usar ferramentas que examinem e procurem provas e demonstrações as quais devem validar a afirmação do cientista, tornando-a verídica, coerente, isto é, apenas expor determinadas respostas ainda não é suficiente para o real interesse do pesquisador.

A Filosofia, então, por possuir um embasamento intelectivo, não deve se basear em opiniões pessoais a respeito das coisas. Ela, portanto, se utiliza de tal tipo de raciocínio organizado devido a estas características, com a intenção de rebuscar, demonstrativamente, os fatos a serem estudados de forma tal que esses não estejam isolados.

Deve-se partir da idéia de que há sempre uma correlação entre os acontecimentos, pois quanto mais são estudados os problemas de nossa época, mais se percebe que eles não podem ser entendidos isoladamente. Só assim se pode chegar a uma criticidade lógica, objetivo atrativo para o cientista.



3) Fale sobre o conhecimento científico e a sua diferenciação quanto ao senso comum.


Resposta: Primeira pergunta: O que é o senso comum? É todo um conjunto de aspectos da vida os quais são observados, porém com indiferença. A curiosidade e o espanto por questões rotineiras da experiência humana são colocadas de lado. Tudo isso ajuda a compor a mentalidade daqueles não-científicos constituída de certezas inquestionáveis, portanto, despossuídas de racionalidade.Com isso, podem-se extrair algumas características do senso comum.


Boa parte delas deve-se ao subjetivismo da observação das coisas, isto é, são derivadas do individualismo de algumas pessoas ou grupo de pessoas ao analisar determinadas situações. Portanto, além de subjetiva, a noção comum apresenta-se como qualitativa, pois há julgamento pessoal no olhar; é heterogênea, pois não enxergam uma universalização de acontecimentos aparentemente diferentes; é individualizadora como já foi dito; é generalizadora, pois procura explicar acontecimentos pressupostamente semelhantes através de uma só idéia; as relações de causa e efeito são assimiladas pela “lógica”, deste modo, não questionadas; há uma falta de curiosidade, de admiração, de surpresa com aquilo que aparenta ser constante, regular.

Entretanto, o que acontece é que a parte de causar espanto só aparece para fatos nunca vistos.

Segunda pergunta: O que é ter conhecimento científico? O conhecimento científico se contrapõe a todos estes pragmatismos expostos pelo senso comum. Ao contrário do subjetivismo, ocorre um objetivismo na tentativa de escapar dos posicionamentos individuais para explicar as coisas. A ciência é quantitativa e não qualitativa, pois deseja alcançar critérios rigorosos de análise através de medidas e padrões; é homogênea, pois pretende buscar leis universais da mecânica dos fenômenos, mesmo para os que parecem diferentes. Assim como o senso comum, o cientista também é generalizador; é diferenciador; somente estabelece relações de causa e efeito após investigação do esqueleto dos fatos em estudo, porém não por imposições qualitativas.Além de outros aspectos os quais o pensamento comum e o científico entram em choque, percebe-se que o cientificismo procura os caminhos a serem traçados com o intuito de libertação intelectual, em outras palavras, objetiva uma metodologia de fuga do medo e das superstições através do conhecimento. O cientista se distingue do senso comum resumidamente porque este se baseia em tradições, conceitos, hábitos e opiniões bem cristalizadas, já a ciência tem ambasamento em pesquisas, provas, etc. o uso da razão é a marca do conhecimento científico.



4)Fale sobre a religião e a sua relação com o homem e com a cultura.


Resposta: Historicamente, pode-se dizer que a religião forma um dos pilares de significância singular nas relações humanas. As formas variadas de religião procuram adotar um método de ligação, um vínculo entre aquilo que foi considerado profano e o que foi considerado sagrado. Normalmente o sagrado representa tudo aquilo que é inalcançável somente com o uso da força ou potência da condição humana. O profano então seria tudo aquilo relacionado diretamente ao ser humano, de imediata associação ao homem.


As crenças costumam agrupar homens através de valores e tradições em comum. Tradições estas vistas como complexos culturais arraigados por meio de ritos, para simbolizar os laços entre o mundo material e o espiritual, repetitivos através dos tempos, objetivando sempre perpetuar aquilo que foi consagrado numa primeira vez. Através de tais valores e tradições que são ditados os caminhos corretos (assim como as atitudes que não são bem-vindas de acordo com o que se crê) a serem tomados pelos membros seguidores. Portanto a cultura entra no contexto religioso: a cultura de uma comunidade procura espelhar-se às normas de convivência impostas pela religião.

As condutas individuais também tendem a atender às necessidades espirituais por intermédio, normalmente, do medo. O medo de castigos providenciados pelos deuses para aqueles que cometerem delitos, infringindo as leis das divindades. O conhecimento de tais leis, entretanto, pode constituir um novo patamar na sociedade. Um grupo de conhecedores, então, forma um também grupo de intelectuais, separados do restante da comunidade, especializados em eternizar os ensinamentos das narrativas da história do início da vida, considerada sagrada. Cria-se assim, uma nova hierarquia assimilada pelos indivíduos.

Resumindo, uma dada religião, de certa forma, molda o pensar e o sentir de seus seguidores; dita o bem e o mal, o certo e o errado; conta como se deu a origem das coisas e dos homens, operando o encantamento do mundo; simboliza rituais, imagens, lugares; forma autoridades etc. Tudo isso, portanto, constitui uma importância crucial na adaptação da cultura humana.



(Bia G.)

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Brasil Colonial I







1)Famílias e Vida Doméstica na Colônia.

A cultura da convivência entre familiares e amigos na Colônia, assim como em qualquer época ou localidade, é influenciada pelas condições econômicas, políticas e sociais vivenciadas.

Portanto, os elementos que marcaram profundamente a formação da sociedade brasileira e moldaram as práticas e os costumes solidamente constituídos no Reino eram: a distância da Metrópole que, por muitas vezes, separava membros de uma família e dificultava a transação de produtos da Europa para a América; a escravidão negra e indígena, a constante expansão do território; a precariedade de recursos.

Além do caráter estratificado da sociedade vigente, o qual implicava numa falta de padrões familiares semelhantes de vida e organização mesmo ao observar o cotidiano de uma mesma camada social.

Deve-se, então, buscar e recuperar os espaços de intimidade (em geral, os domicílios), analisando as atividades desenvolvidas em seu interior, a divisão de tais atividades entre os membros da família, objetivando o inteiramento mais real possível das formas de convívio e sociabilidade doméstica na Colônia.

2)A Família e o Domicílio

Estudar, pois, a vida doméstica compromete, por conseqüência, o estudo também do domicílio pelo fato de ser esse o espaço de convivência da intimidade, pois é exatamente no domicílio que observaremos as formas de interação com o meio natural, inovando nas formas de subsistência e conhecendo os laços afetivos dos colonos.

O casamento sacramentado possuiu um caráter peculiar no Brasil como projeto colonizador e representou uma correlação entre Igreja e Estado, atingindo primordialmente, porém, as elites ao conferir status social. Nas classes menos abastadas normalmente observava-se uniões consensuais.


No entanto, antes do século XVIII havia uma dificuldade de distinção entre o público e o privado devido a algumas características tais como exemplos: um território pouquíssimo povoado e as grandes distâncias entre uma morada e outra. Com a efetiva povoação, não só houve uma transformação na vida colonial, como também ocorreu uma sofisticação em certos lugares a exemplo dos costumes trazidos pelos emigrados e pelas travessias mais freqüentes.


3)A Morada Colonial e os Espaços de Intimidade

A arquitetura das moradas, ao menos nos primeiros três séculos de colonização, apresentava-se bastante rústica devido à falta de recursos dos habitantes, assim como o caráter passageiro das estadias dos proprietários de sítios e fazendas. Desse modo, nota-se uma regularidade nas construções urbanas como sendo casas pequenas com o predomínio do barro e da madeira ou pedras. Havia uma forte influência indígena na adaptação dos colonos quanto à forma de morar. Em contraposição das edificações urbanas, a falta de uniformidade já foi característica das propriedades rurais.

Os anexos às casas coloniais como jardins, pomares e hortas, normalmente eram circundados por muros baixos, delimitando o espaço domiciliar. Existia ainda a casa da farinha, o monjolo ou moenda. Tais áreas representavam as dependências voltadas para a produção de alimentos básicos para subsistência onde se passava a maior parte do tempo, principalmente as mulheres da casa.


Devido ao clima quente e as poucas portas e janelas presentes, as famílias procuravam as partes mais externas das casas, seja nos momentos de lazer seja nos de trabalho. Nas moradias mais amplas e abastadas, estas áreas também serviam de espaço para as refeições. Conclui-se, assim, que a vida doméstica era mais voltada para o exterior das edificações onde se vivia mais intensamente.




4)Os Interiores da Casa: Em Busca de uma Intimidade.

A diferença básica entre as construções dos homens mais pobres e livres e as edificações dos que dispunham de algumas posses se concentrava no caráter da privacidade. Enquanto nas primeiras havia um reduzido número de cômodos, o que não deixa dúvidas a respeito da superposição de funções e atividades desses, observa-se, desse modo, uma falta de privacidade. Já nas últimas, a presença de mais cômodos, normalmente postos em uma fileira (padrão geral para quase todo o país), permite uma maior privacidade.


Entretanto, esta intimidade das casas mais abastadas possuía um limite, apesar dos espaços bem definidos para mulheres, hóspedes e escravos, além de salas e aposentos destinados à atividades específicas, pois era comum entre os quartos haver uma comunicação.
Somente em meados do século XVIII, devido uma maior mobilidade social que as bandeiras e entradas propiciavam e o crescimento das cidades, é que os colonos se preocuparão melhor com a questão da intimidade.


Embora existissem muitas diferenças das formas de moradia entre as regiões do Brasil colonial (São Paulo, por exemplo, era bastante precária em relação ao Nordeste açucareiro), no que tange à questão do mobiliário das casas, segundo as fontes de depoimentos colhidos, predominava uma forte modéstia, característica que persistiu por séculos. Havia poucas cadeiras, uma ou duas mesas com seus bancos e algumas caixas e baús. Com a constância da superposição das funções nos cômodos, também existiam raras camas de dormir, entretanto constam-se redes de dormir pelas suas praticidades. O suprimento mobiliário, ao menos para as casas mais abastadas, só começou a aparecer no início do século XIX nos portos de Recife, Bahia e Rio de Janeiro.

Existia uma comunicação direta entre as residências por onde se faziam visitas sem cerimônia, uma prática corriqueira, não delimitando, desse modo, os limites de intimidades entre as famílias. Mudanças em prol de uma ordenação da disposição espacial dentro e fora das casas só serão possíveis com a formulação de novas regras de conduta e de pudor.

Tenta-se explicar o primitivismo da maioria dos lares coloniais atribuindo tal característica ao trabalho árduo pelo qual passavam os colonos, o que não deixava muito tempo livre para se pensar em mordomias da moradia.



5)Formas de Sociabilidade no Ambiente Doméstico.


Como já foi dito, os espaços exteriores às casas eram os locais onde se tinha uma maior intensidade, isto é, eram os principais locais de sociabilidade da vida doméstica. A interação social era intensificada pelas festas religiosas e as festas em homenagem à família real e às autoridades civis e eclesiásticas, sendo estas últimas em menor número. Nelas participavam não somente os moradores do núcleo urbano, mas também aqueles interioranos dos sítios e fazendas dos arredores ou, até mesmo, de lugares mais distantes.




Juntando a isso, ainda existia a característica marcante dos brasileiros: a questão da hospitalidade. Tinha-se o costume de hospedar viajantes e forasteiros, às vezes o único contato com o mundo exterior que os colonos das áreas mais afastadas desfrutavam.
Jogos como baralhos e tabuleiros de xadrez e gamão também são vistos como formas de sociabilidade entre familiares e amigos. A inquisição, inclusive agiu sobre vários indivíduos acusados de blasfemarem enquanto jogavam.



Apesar de não ser um hábito tão difundido devido a maior parte de a população ser iletrada até o início do século XIX, a leitura em voz alta ou silenciosa também era uma forma de compartilhar a intimidade e o convívio familiar.

Na Colônia se valorizava bastante as visitas, muitas vezes tornando-as, entre os membros das camadas mais altas, alegres reuniões nas quais se dançava, jogava, conversava com muita animação em meio a uma fartura de comes e bebes.

6)Costumes domésticos.

Os costumes domésticos nos primeiros séculos de colonização foram influenciados principalmente pelo fato da distância da Metrópole o que dificultava as embarcações, atrasando as frotas. Com isso, então, para conseguir sobreviver sem vinho, trigo ou sal durante meses, os colonos tiveram, em primeira instância, a aprender com os próprios gentios da terra a se protegerem do clima e dos animais, a preparar os alimentos disponíveis, a fabricar utensílios e a explorar as matas. As índias assumiram o lugar das mulheres brancas, pela falta dessas, ensinando a socar o milho, a preparar a mandioca, a trançar as fibras, a fazer redes e a moldar o barro.

A importância do trabalho feminino era enfatizado pela esfera doméstica, mas não ficou restrito à esfera doméstica, pois até nas bandeiras ela compartilhavam com os homens inúmeras aventuras e o trabalho do dia-a-dia. Elas preveniam o ataque de insetos preparando mosquiteiros e defumando a casa ao anoitecer, comandavam as escravas e os índios domésticos além de grande parte da indústria caseira. Através do trabalho manual também se fabricavam utensílios domésticos como almofadas e travesseiros recheados de penas, lã ou lanugem etc. Também era trabalho feminino.
Não havia o costume de se usar talheres nas refeições. O comum era comer com as mãos em qualquer classe social, mesmo que os convidados fossem finos. O requinte de bandejas de prata era raro! O que se tinha, normalmente, eram louças de barro. Servia-se as refeições ao redor de uma mesa baixa ou muito freqüentemente de uma esteira estendida no chão, sem o conforto de cadeiras.

Os alimentos principais da dieta dos colonos durante séculos foram: a farinha de mandioca, carne-seca, rapadura, arroz, feijão e milho.





7)Trabalho e Atividades no Interior do Domicílio.

A escravidão e a falta de produtos estimularam a produção doméstica e marcaram profundamente as atividades dos colonos no interior dos domicílios e sua rotina cotidiana. Havia, assim, uma tendência à auto-suficiência tanto nos sítios como nas grandes propriedades. A produção em pequenas quantidades, porém para consumo interno da propriedade, era efetuada a partir de técnicas mais primitivas e trabalhosas.

A fiação e a tecelagem, por exemplo, produziam um pano grosseiro tanto para o vestuário dos escravos como roupas caseiras do dia-a-dia. Também se fabricava as redes de uso bastante comum. Entretanto, a tecelagem representava um trabalho fatigante, vagaroso e pouco valorizado, inclusive na Metrópole. Com o avançar dos tempos, alguns produtos já podiam ser adquiridos, porém outros ainda necessitavam ser produzidos em casa.

A falta de moedas impulsionou uma economia de trocas nos primeiros tempos na qual porcos e galinhas, algodão e farinha eram bastante valorizados e usados como dinheiro.
Aqui entra mais uma vez o papel dos índios na adaptação dos colonos cujas técnicas para se fazer cerâmicas e cestarias foram apreendidos pelos gentios. Ainda destinados ao consumo doméstico e ao asseio da casa, fabricava-se sabão com cinzas de vegetais queimados.

Na vida doméstica na Colônia, trabalho e lazer confundiam-se no dia-a-dia dos colonos, a exemplo dos senhores, que, enquanto administravam seus negócios e cuidavam do funcionamento da casa, dedicavam-se a outras atividades, algumas delas manuais.


(Bia G. e Mari N.)- Baseado na obra "História da Vida Privada no Brasil", de Fernando Novais.
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Metafísica II






Aos que virão depois de nós

I

Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
já está então inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?
É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)

Dizem-me: come e bebe! Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede?

Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.
Eu queria ser um sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
Manter-se afastado dos problemas do mundo
e sem medo passar o tempo que se tem para viver na terra;

Seguir seu caminho sem violência,
pagar o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas eu não consigo agir assim.
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!

II

Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens no tempo da revolta
e me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.
Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
deitei-me entre os assassinos para dormir,
Fiz amor sem muita atenção
e não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.

III

Vocês, que vão emergir das ondas
em que nós perecemos,
pensem,
quando falarem das nossas fraquezas,
nos tempos sombrios
de que vocês tiveram a sorte de escapar.
Nós existíamos através da luta de classes,
mudando mais seguidamente de países que de sapatos,
desesperados!
quando só havia injustiça e não havia revolta.

Nós sabemos:
o ódio contra a baixeza
também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
faz a voz ficar rouca!
Infelizmente, nós,
que queríamos preparar o caminho para a amizade,
não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós
com um pouco de compreensão.

(Bertolt Brecht)-(1898-1956)-Dramaturgo e poeta alemão. Revolucionou o teatro com peças que visavam estimular o senso crítico e a consciência política do espectador.

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Metafísica I




Em alguns momentos da vida, é necessário fazer um exame de consciência, que nada mais é que um diagnóstico de nossa humanidade.A crônica, intitulada Réquiem, do escritor Milton Dias(*1919 - Ipu - CE; + 1983 - Fortaleza - CE), volta-se para a reflexão sobre a existência, sobre as escolhas, sobre a nossa percepção da realidade.

Antes da leitura, gostaria de registrar algumas observações:

-Sugiro que faça essa leitura, à noite, quando as emoções se tornarem mais intensas, tomando conta de cada pequeno compartimento da sua alma.
-Sugiro que escute uma música suave, porém profunda, e que tente avaliar quem você é de verdade.
-Sugiro que faça uma contabilidade afetiva, lembrando-se dos bons e maus momentos.

-Sugiro que leia vagarosamente, degustando cada linha, e tente transpassar seus sentidos limitados.
-Sugiro que se questione sobre o que é realmente valoroso em um mundo tão indiferente quanto o nosso.

-Sugiro que se dispa de qualquer envoltório, e seja capaz de reconhecer o peso de suas ações.

-Sugiro que, ao reconhecer o ônus dos seus atos, tenha humildade para reconstruir seu alicerce vital.E que essa nova construção seja suficiente para iluminar o seu espírito.

-E se não puder seguir as sugestões, sugiro que lamentemos, juntos, a cruz de sua insensibilidade, e desejemos, também, que a vida não te castigue tanto antes do suspiro derradeiro.



Réquiem



Já foi aurora, foi manhã e foi tarde, agora é crepúsculo, e o homem que assistiu a tudo e não semeou bem está cheio de desespero diante da noite próxima. O homem que só encontrou tempo para se encher de dinheiro e de egoísmo.

Nas candeias do pensamento, queima o óleo do pessimismo devorante e da angústia assassina, usa melancolia no coração inquieto e em torno de si só descobre amargura. Porque não fez amigos nem entre os seus mais seus.

À mesa sentou sozinho porque não interessava a comunicação, mas a gula. E no banquete não confraternizou mais se satisfez. E ignorou a companhia mais próxima.

À fonte dos desejos compareceu ávido e assíduo, mas cedo a avareza lhe quebrou o encanto, como o cântaro da lenda.

Enquanto era sol, não semeou amor e colhe arrependimento. Não cultivou amizade e recolhe desprezo. Não praticou a bondade, nem conheceu a beleza.

Foi superficial em tudo, menos no amealhar.

Onde as boas memórias deveriam florir para aquecer seu inferno, só encontra remorso.


Consulta o céu e não enxerga estrelas. Procura a lua cheia e é quarto minguante. Indaga da luz e só recebe a resposta da sombra. Busca o verde e descobre cinza. E, no canteiro de cardos que não foram plantados, nasceu um pé de Solidão junto dum pé de Tristeza.

Aí começa o drama.

Carente de ternura, com os lábios queimados de todas as taças, a boca lembrada de muitas bocas, as mãos vazias, o coração enfermo, olha em torno e só encontra uma réplica negativa, uma voz que vem de dentro de si mesmo, na terrível tomada de consciência, que é antes uma profunda auto-acusação retardatária.

Quer volta, não pode: o tempo impiedoso é irreversível e marcha sempre.Ninguém lhe pode impedir a caminhada ameaçadora dentro da escuridão. Traz no bojo um monstro que se chama medo e que vai ser solto pela boca da noite e vai crescer pelas horas mortas da madrugada.

Na distribuição de sentimentos entre os que o cercam, como numa festa de prendas, nem ódio mereceu.Só indiferença. Na hora da classificação, foi esquecido.Porque no instante da decisão omitiu-se. Na hora da escolha, falhou. No momento da palavra solidária, silenciou.Na vez do gesto de ajuda, a mão encolheu.

Nas bodas, foi o Egoísta; na família, o Indesejado; nas ocasiões generosas da filantropia, o Grande Ausente; nos festejos do congraçamento nacional, o Apátrida.

O homem é o espectro do homem.

A mulher que não suportou a opressão, a vileza e a miséria, partiu.

Os filhos desgarraram, não encontraram o caminho de volta, enjoados e temerosos. Esperam aflitos o momento da participação.

Sozinho, sem mulher, sem filhos, sem amigos, cantar já não sabe, orar nunca soube, ajudar nunca pôde.E a língua que recriminava fácil, que era rápida na acusação e fluente no ataque, está muda. A mão que era leve na punição injusta está impotente.Os olhos indiscretos que humilhavam estão cegos.No abraço egoísta, perdeu o calor do seu próprio corpo.A antiga força é uma sombra vã.

Não ouve, não vê, não fala, não anda.

Aprendeu a chorar, nesta hora de sol posto.Sentado numa arca abarrotada, aguarda a noite que se aproxima com seu cortejo de pavores, carregada de desespero.


(Mari N.)




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